Israel e diáspora: que vínculo estamos construindo?
David DiesendruckDesde 7 de outubro, dedicamos enorme energia a combater o antissemitismo e a defender Israel. A violência daquele dia, o drama dos reféns e a hostilidade contra judeus mobilizaram nossas comunidades. Também aprofundaram nossos medos.
Tenho me perguntado que identidade judaica estamos construindo nesse contexto. Quanto investimos em conhecer nossa tradição, transmitir seus valores e criar espaços nos quais as próximas gerações queiram permanecer?
No podcast Identity/Crisis, Barry Finestone, presidente e CEO da Jim Joseph Foundation, questiona a eficácia de parte dos investimentos no combate ao antissemitismo e propõe investir mais em experiências de vida judaica. Yehuda Kurtzer, presidente do Shalom Hartman Institute, amplia a reflexão. Além de sobreviver e florescer, que povo queremos ser? A que valores queremos corresponder?
Combater o antissemitismo é necessário. Quando, porém, a condição de vítima ocupa o centro da nossa identidade, corremos o risco de deixar que os antissemitas definam a agenda da vida judaica. Nossa tradição, nossa cultura e aquilo que desejamos construir passam a receber menos atenção do que aquilo a que precisamos responder.
Algo semelhante acontece na nossa relação com Israel. Quando se perde a distinção entre Estado, sociedade e governo, defender a existência e a segurança do país pode passar a significar defender qualquer decisão de seus governantes.
E, quando o advocacy ocupa o lugar da educação, aprendemos a responder a acusações, mas temos menos oportunidades de conhecer a sociedade israelense e discutir suas contradições.
Elliot Cosgrove, rabino da Park Avenue Synagogue, descreve como o apoio a Israel chegou a funcionar como uma religião civil entre judeus americanos, às vezes tomando o lugar de outras experiências de vida judaica. Isso me faz pensar na nossa própria comunidade. Quando alguém discorda sobre Israel, ainda se sente em casa entre nós? Para os mais jovens, a resposta a essa pergunta pode pesar na decisão de continuar participando.
Gershon Baskin, ativista israelense pela paz, pergunta se o Israel em que acreditou ainda corresponde ao país que uma parcela significativa dos israelenses deseja construir. É uma pergunta incômoda porque aponta para mudanças que ultrapassam um governo. Israel continua sendo uma sociedade plural, em que pessoas e movimentos disputam os rumos do país. Conhecer essa diversidade pode nos ajudar a sustentar o vínculo mesmo quando discordamos de suas escolhas políticas.
Quero que Israel continue sendo parte importante da nossa identidade. Para isso, o vínculo precisa comportar afeto, solidariedade e liberdade para questionar. E precisa ser recíproco. Como propõe Finestone em outro artigo, cabe à diáspora compreender os desafios da soberania e a vulnerabilidade vivida pelos israelenses. Cabe também aos israelenses reconhecer a riqueza da vida judaica que construímos fora de Israel.
Podemos começar ouvindo diferentes gerações da comunidade judaica brasileira, inclusive quem participa pouco ou se afastou. Uma pesquisa com questionários e entrevistas ajudaria a entender que lugar Israel ocupa em suas vidas e o que fortalece ou enfraquece seu sentimento de pertencimento.
A partir dessa escuta, escolas judaicas, movimentos juvenis e outras iniciativas de educação não formal poderiam discutir o que ensinamos sobre Israel e como acolhemos as perguntas dos jovens. Um encontro com pensadores e educadores brasileiros, israelenses e americanos poderia dar consequência à conversa, com projetos de formação e intercâmbio nos dois sentidos.
Quero que nossos filhos e netos encontrem sentido em ser judeus, lugar na comunidade e espaço para construir sua própria relação com Israel. Quando lhes falamos de Israel, quanto tempo dedicamos a ensinar como defendê-lo? E quanto dedicamos a conhecê-lo juntos?
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