Do outro lado não mora um inimigo
15 abr 21

Do outro lado não mora um inimigo

Fabio Silva

Concebido com a pretensão de se tornar um movimento internacional de boicote econômico, cultural e acadêmico a Israel e pressionar o país em seu conflito com a Palestina, o BDS tem estreitado laços com vertentes radicais.

A bandeira levantada pelo BDS tem sido incorporada por diversos movimentos políticos que usam o conflito para marcar uma suposta posição no espectro político (esquerda pró-palestina versus direita pró-Israel). Com isso, criou-se uma espécie de guerra fria em que aqueles que defendem soluções alternativas às do BDS, seriam de direita.  

No Brasil, o BDS tem sido parte  da pauta de partidos políticos de esquerda que têm, de maneira sistemática, atacado o Estado de Israel e a sua existência. Não há problema em criticar o Estado judeu, é claro, mas questionar a legalidade de sua existência é comparável à postura de negacionistas, terraplanistas e toda sorte de agremiações que acredita em teorias conspiratórias e movimentos ultranacionalistas. 

O que se faz necessário é a busca por uma solução que envolva ambos os lados do conflito, e  que só é capaz de acontecer por meio de um diálogo com diversos atores. Na contramão do BDS, entidades como os Combatants for Peace têm construído uma aliança binacional que estimula iniciativas de paz entre os dois povos, integrando as comunidades e mobilizando pessoas que querem o fim do conflito, isso tudo sem deslegitimar a existência do outro.

Uma falha comum em movimentos extremistas é a ausência de compreensão sobre a pluralidade de ideias e comportamentos que existe do outro lado do muro. A generalização existe dos dois lados, e desmistificar um suposto outro que seria o inimigo é importante para construção de processos de paz. Os estereótipos que cada identidade carrega no imaginário coletivo prejudica este diálogo, já que hoje, a título de exemplo, muitos desinformados são levados a acreditar que todos os israelenses são politicamente identificados como apoiadores da direita e das políticas realizadas pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, sendo que da sua fundação até o ano de 1995 (houve um pequeno intervalo nesse período em que o Likud ganhou as eleições), Israel foi governado, quem diria, pelo partido trabalhista de esquerda, o Avodá. Da mesma maneira, o FATAH passou de um movimento que praticava ataques terroristas para um partido político legítimo que hoje compõe a Autoridade Palestina no território da Cisjordânia. 

Ou seja, se ambos os lados não abrissem mão de estereótipos para entender o que se passava de fato do “outro lado”, não teria havido os Acordos de Oslo, costurado por Rabin e Arafat. E se os acordos não avançaram como o esperado, foi justamente por movimentos generalistas e de boicote, de lado a lado, que não aceitavam a interação com o suposto outro.

Apostar em incendiar um conflito ao invés de pacificá-lo é uma manobra de imensa irresponsabilidade. Prejudica inúmeros esforços que são realizados por membros da sociedade civil israelense e palestina, assim como por grupos políticos comprometidos em encontrar, por vias diplomáticas, soluções para o conflito entre israelenses e palestinos. 

Nesse sentido, o BDS, ao atacar Israel por meio de seu movimento de combate, acaba servindo aos interesses daqueles que não querem a paz entre os dois povos, prestando assim um desserviço à Palestina.

Há muitos judeus e israelenses, assim como palestinos, que têm trabalhado em prol do diálogo e reconhecem um ao outro como legítimos. Muitos israelenses, por exemplo, são críticos à expansão dos assentamentos nas linhas pós 1967 e lutam pela consolidação de um Estado Palestino. Da mesma maneira, muitos palestinos são contra o Hamas e o terrorismo e lutam para encontrar uma solução pacífica para o conflito. Assim, iniciativas como as do BDS, ao invés de contribuir para o diálogo, acaba sendo um dos fatores que prejudica a assimilação deste debate dentro da comunidade israelense e palestina.

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