“Analistas são unânimes em reconhecer que não há nada de novo no que foi apresentado”
02 maio 18

“Analistas são unânimes em reconhecer que não há nada de novo no que foi apresentado”

Na noite de segunda-feira, 30/04, Benjamin Netanyahu convocou a imprensa para um pronunciamento sobre a descoberta, por parte do serviço secreto israelense, de inúmeros documentos sobre o projeto nuclear iraniano. O primeiro-ministro tinha o intuito de provar que o Irã está mentindo em relação ao àquilo que é dito publicamente e que estaria violando o acordo nuclear. Convidamos o cientista político Samuel Feldberg para analisar o discurso de Bibi e seus possíveis impactos de curto e médio prazo. Feldberg é professor de Relações Internacionais da USP, Research Fellow do Centro Moshe Dayan da Universidade de Tel Aviv e do Israel Studies Institute da Universidade Brandeis.

IBI – Há alguma novidade no anúncio do primeiro ministro israelense sobre as revelações que comprovariam que o Irã não está cumprindo com a sua parte no acordo nuclear? Alguma descoberta ou prova que valha destacar?

SAMUEL FELDBERG – Todos os analistas respeitáveis são unanimes em reconhecer que não há nada de novo no que foi apresentado, a não ser o fato de que o material foi obtido pelo Mossad, o que em si é uma façanha. Mas já há inúmeras críticas à exposição da operação, que provavelmente terá um alto custo para as fontes iranianas utilizadas pelo Mossad. Os elementos apresentados por Netanyahu são todos conhecidos, foram a razão pela qual as sanções foram impostas ao Irã no passado e, em nenhum momento é mencionado algo referente à violação do atual acordo. Não é nenhuma surpresa o fato de que os iranianos tem desenvolvido mísseis de longo alcance, o que aliás não está contemplado no acordo.

IBI – Por que Bibi decidiu fazer esse anúncio publicamente? Por que agora?

SAMUEL FELDBERG – Certamente a iminência da decisão norteamericana sobre o acordo está contemplada, e não se descarta a importância do avanço das investigações sobre corrupção contra Netanyahu e a fragilidade de sua coalizão. Se forem convocadas novas eleições, a ameaça iraniana teria um peso significativo junto aos eleitores.

IBI – Quais os impactos que isso pode ter no curto e no médio prazo, especialmente no que se refere às relações entre Israel e Irã? 

SAMUEL FELDBERG – As relações entre Israel e o Irã não podem piorar muito, a não ser através de um enfrentamento direto.  Nas últimas semanas israel destruiu extensas instalações iranianas e arsenais de foguetes na Síria, matando dezenas de soldados e milicianos iranianos, por ora sem qualquer reação. Mas as forças israelenses no norte do país estão de prontidão e as representações israelenses e comunidades judaicas ao redor do mundo estão alertadas para a possibilidade de uma retaliação. Assim como em Buenos Aires na década de 1990, os iranianos podem levar o confronto aos alvos mais vulneráveis. Não descartar o Brasil, como a maioria prefere fazer.

IBI – O pronunciamento de Bibi ameaça o acordo nuclear entre Irã e as potências?

SAMUEL FELDBERG – Os europeus não se impressionaram e os Estados Unidos não veem nada de novo naquilo que foi apresentado. Se Trump decidir abandonar o acordo, é pouco provável que convença a França, Alemanha, Índia e China e, portanto, o impacto maior estará na restrição a empresas que hoje negociam com o Irã e terão que optar entre manter seus vínculos e continuar trabalhando com empresas americanas. Talvez a pressão norteamericana e o custo econômico de uma retomada das sanções seja suficiente para influenciar o governo iraniano, que enfrenta amplos protestos internos por conta de sua intervenção na Síria. Alguma modificação no acordo, com o acréscimo de algumas restrições e verificações poderiam permitir tanto a Trump quanto à liderança iraniana declararem que atingiram seus objetivos. 

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