Governo Bennett-Lapid se fortalece com aprovação do orçamento de 2022
05 nov 21

Governo Bennett-Lapid se fortalece com aprovação do orçamento de 2022

Daniela Kresch

TEL AVIV – Se o ex-primeiro-ministro israelense Benjamin “Bibi” Netanyahu esperava voltar rapidamente a liderar o país, ele pode – com perdão da informalidade – ir “tirando o cavalinho da chuva”. Motivo: a aprovação do orçamento de 2022 pelo Knesset, o Parlamento em Jerusalém, na madrugada de sexta-feira (6 de novembro) por 59 votos à favor e 56 contra. Trata-se do primeiro novo orçamento aprovado desde março de 2018, quando Netanyahu, que está sendo julgado por fraude, quebra de confiança e suborno, deliberadamente adiou as votações para manter-se na liderança e tentar conseguir algum tipo de imunidade.

Pela lei israelense, um governo é automaticamente derrubado e novas eleições são marcadas, caso o orçamento para o ano seguinte não seja aprovado até 14 de novembro. Então, um novo orçamento significa estabilidade para o atual governo, no poder desde junho, que definitivamente deixa de ser “temporário” na cabeça de muitos likudniks (principalmente Netanyahu). Com a aprovação, Bibi ficou mais distante de um cameback político, já que não há novas eleições no horizonte. 

De uma coalizão que surgiu apenas para derrubar Bibi do poder – com a união de 8 partidos distintos e às vezes, até mesmo contrários ideologicamente –, este governo recebeu um carimbo de validação e passou a ser visto como mais sólido. 

A aprovação do orçamento não foi fácil. Foram 35 horas ininterruptas de votações, porque antes era preciso aprovar o orçamento de 2021 (em novembro!) para passar o de 2022. Mas assim que tudo terminou, às 3h da manhã, membros da coalizão bateram palmas e tiraram selfies. 

“Esta noite, colocamos Israel de volta nos trilhos. Finalmente, um orçamento”, tuitou o primeiro-ministro Naftali Bennett assim que a votação terminou. 

“Mantivemos nossa promessa. Aprovamos um orçamento para 2022 para a nação e os cidadãos de Israel”, escreveu o chanceler e premiê alternativo, Yair Lapid. 

Sem votações orçamentárias, Israel passou os últimos três anos repetindo o orçamento de 2018, sem atualizá-lo para as necessidades atuais. O resultado da falta de atualização foi a falta de verbas para questões urgentes – como a luta contra a violência nas cidades árabes e a alta do custo de vida – e a abundância de dinheiro para causas duvidosas. 

Analistas indicam que Netanyahu evitou novos orçamentos porque não conseguia negociar nenhuma reforma que retirasse verbas alocadas para apoiadores leais, como os ultraortodoxos e partidos de extrema-direita. Para manter-se no poder com o apoio desses setores, ele preferiu empurrar com a barriga qualquer reforma ou mudança no orçamento.  

Agora, o governo Bennett-Lapid mostra que reformas são possíveis mesmo com uma coalizão tão heterogênea. Prova que ser um refém de aliados políticos é uma receita para o fracasso. A aprovação também é uma prova de que Netanyahu não é insubstituível. 

Bibi também utilizou votações orçamentárias para romper seu compromisso com o atual ministro da Defesa, Benny Gantz, evitando que Gantz se tornasse premiê. Quando a pandemia de Covid-19 começou, em março de 2020, ele conseguiu enganar Gantz, oferecendo a ele a cadeira de primeiro-ministro em esquema de rotação, num “governo de união nacional”, caso aceitasse ingressar em uma coalizão após a 3ª eleição parlamentar no país em apenas um ano. A ideia seria que Netanyahu ficaria um ano no poder até novembro de 2021 e, depois, Gantz assumiria.  

Mas Netanyahu se recusou a votar o orçamento de 2021, em novembro de 2020, para justamente derrubar o governo em conjunto com Gantz e evitar que ele assumisse o cargo, convocando novas eleições para dar a ele uma nova chance de montar um governo sem Gantz. O tiro, no entanto, saiu pela culatra. Na 4ª eleição em dois anos, em março de 2021, Netanyahu perdeu a cadeira. 

Esse tipo de miudeza política, de esperteza, de manobra bem típica dos 12 anos ininterruptos de governo Netanyahu foi exatamente o que Bennett e Lapid (com ajuda do próprio Gantz e do ex-número 2 do Likud, Guideon Saar) se propuseram a eliminar da política israelense. 

“Em 8 de dezembro, fundei o Nova Esperança e comecei uma jornada para resgatar Israel de sua subjugação aos interesses pessoais de apenas um homem”, escreveu o atual ministro da Justiça Guideon Saar no Twitter. “A aprovação do orçamento é o amanhecer de novas esperanças, um passo importante para tirar Israel da maior crise política de sua história e rumo à estabilidade política e econômica, para o país e seus cidadãos”. 

É claro que nem tudo são flores. Há desacordos e discórdias no atual governo, mesmo que a união ad hoc de partidos tão distintos tenha conseguido finalmente aprovar um novo orçamento. É possível, inclusive, que superar esse obstáculo do orçamento tenha sido o primeiro passo para o fim deste governo. Afinal, esse era o objetivo: derrubar Bibi e colocar Israel de volta nos trilhos em termos de estabilidade econômica e política.  

Registradas essas duas vitórias, pode ser que as diferenças intrínsecas entre os partidos que formam a atual coalizão comecem a dar as caras ainda mais do que já estão dando. Pode ser que a colaboração entres esses partidos – dois de esquerda, dois de centro, três de direita e um árabe –, que muitos consideram quase artificial, comece a realmente ruim. Mas, a meu ver, enquanto Benjamin Netanyahu ainda estiver na política israelense e ameaçar uma “redenção” política, essa atual “coalizão-colcha-de-retalhos” vai se manter unida.

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