Israel e Rússia: Relacionamento à beira do fim?
17 out 22

Israel e Rússia: Relacionamento à beira do fim?

Daniela Kresch

TEL AVIV – O que Israel temia em relação à Guerra na Ucrânia está acontecendo. A Rússia, com quem Israel tinha ótimos laços diplomáticos há anos, pode cortar relações. Os russos já estavam irritados com Israel porque o país, após algum tempo de hesitação, admitiu publicamente seu apoio moral à Ucrânia. Agora, Moscou acusa Israel de ajudar militarmente os ucranianos – apesar de não haver nenhuma informação concreta sobre isso.

“Israel parece estar fornecendo armas ao regime de Kiev”, escreveu, em um post no Telegram, Dmitry Medvedev, ex-presidente da Rússia e atual vice-presidente do Conselho de Segurança russo, nesta segunda-feira (17 de outubro). “Seria um passo muito imprudente. Isso destruirá todas as relações entre nossos países”.

Um oficial israelense disse ao jornal “Haaretz” que Medvedev estaria reagindo a um tuíte do ministro da Diáspora de Israel, Nachman Shai, no domingo, sugerindo que Israel enviasse logo equipamento militar para a Ucrânia e não apenas material de defesa, como capacetes e coletes à prova de bala, ou ajuda humanitária.

“As dúvidas sobre onde Israel deve ficar neste conflito sangrento acabaram. Não há mais espaço para ser hipócrita. Chegou a hora de fornecermos ajuda militar à Ucrânia como os EUA e a OTAN”, escreveu Nachman Shai no Twitter.

Mas Medvedev poderia estar reagindo, na verdade, a informações anônimas de um alto funcionário ucraniano que disse, na quinta-feira (13 de outubro), que uma empresa privada israelense estaria fornecendo à Ucrânia imagens de satélite sobre a posição de drones do exército russo – fabricados no Irã.

Oficialmente, o que sabemos é que a Ucrânia tentou comprar sistemas de defesa aérea israelenses em várias ocasiões desde o início da guerra, mas Israel, até agora, se recusou a vender por medo de provocar a Rússia. O próprio presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, sempre reclama que Israel não o ajuda, na prática, e se mantém em cima do muro. Mas, ao que parece, Israel estaria ajudando os ucranianos por debaixo dos panos mais do que se imagina.

Quando os russos atacaram a Ucrânia, em fevereiro, muitos israelenses ficaram confusos sobre o que Israel deveria fazer. A maioria achava que deveria seguir os Estados Unidos e os europeus, apoiando totalmente a Ucrânia nessa guerra sem provocação, o que seria o certo a fazer em termos morais. Seria estar do lado certo da História.

Mas alguns especialistas alertaram quanto a isso, dizendo que o tiro sairia pela culatra. Afinal, Israel deveria pensar nas consequências diretas desse passo para o país. Como eu já escrevi neste espaço, Jerusalém fica a 3 mil quilômetros de Kiev, mas estão mais próximos do que se pensa do conflito. É como se a Rússia fizesse fronteira com Israel. Os russos são muito influentes na Síria e estão fortemente presentes no país, apoiando o governo Bashar Assad há uma década.  

E, sem os russos, Israel não teria a liberdade atual de agir contra comboios de armas iranianas que tentam chegar à guerrilha Hezbollah, no Líbano, através do solo sírio. São os russos que acalmam o governo Assad sempre que aviões militares israelenses atacam algum desses comboios. Recentemente, no entanto, os russos têm acobertado menos esses ataques.

Quer dizer: estar do lado certo, do lado ucraniano, pode custar caro a Israel. E não apenas na fronteira com a Síria. Os russos estão tentando fechar a Agência Judaica na Rússia (o processo nesse sentido está ainda nos tribunais) desde que Yair Lapid se tornou primeiro-ministro. Lapid é, afinal, um dos maiores críticos da invasão russa, em Israel.

No post do Telegram, Dmitry Medvedev também disse que, se estiver realmente ajudando a Ucrânia, Israel deveria “declarar Bandera e Shukhevych como seus heróis”. Stepan Bandera foi um líder ucraniano de extrema-direita simpatizante do nazismo. Ele foi declarado “Herói da Ucrânia” postumamente em 2010 pelo então presidente ucraniano Viktor Yushchenko, numa medida condenada por diversos países e grupos judaicos. O outro nome citado é o de Roman-Taras Shukhevych, que trabalhou com Bandera.

As palavras de Medvedev novamente colocam a questão nazista no centro desta guerra. Vladimir Putin não se cansa de dizer que a Ucrânia de Volodymyr Zelenskyy é um “país nazista” (mesmo que Zelenskyy seja judeu). O Ministério das Relações Exteriores da Rússia disse, em maio, chegou a dizer que “Israel apoia neonazistas na Ucrânia”.

É incrível como o simbolismo do nazismo tenha tanta força neste conflito. Não sei se Israel está ou não enviando informações ou armas à Ucrânia. Mas, certamente, está realizando cálculos políticos complicados. Se apoiar um lado, perde. Se apoiar outro, também. Ou melhor: se correr o bicho pega, de ficar o bicho come.

Artigos Relacionados

Que reforma judicial Israel realmente precisa?
Que reforma judicial Israel realmente precisa?

Calendar icon 9 de agosto de 2023

Daniela Kresch TEL AVIV – Israel passa por um momento turbulento. A não ser que você viva isolado no deserto, saberá que o atual governo Benjamin Netanyahu está tentando aprovar uma ampla reforma judicial desde que tomou posse, no finalzinho de dezembro de 2022. Na verdade, a reforma foi anunciada alguns dias depois, no começo […]

Arrow right icon Leia mais
Reflexões (e pesadelos) por ocasião dos 50 anos da minha aliá
Reflexões (e pesadelos) por ocasião dos 50 anos da minha aliá

Calendar icon 24 de maio de 2023

Avraham (Tito) Milgram* Fiz aliá em março de 1973, há cinco décadas, que somam dois terços da vida do Estado de Israel, que este ano festeja 75 anos de independência. Inevitavelmente, o que me vem à cabeça, nos tumultuados dias que vivemos, pesa mais e certamente determina minhas lembranças do que vi e vivi em […]

Arrow right icon Leia mais
Os beijos infames
Os beijos infames

Calendar icon 24 de fevereiro de 2025

Daniela Kresch TEL AVIV – Um gesto inusitado suscitou emoções fortes durante a mais recente libertação de reféns israelenses pelo grupo terrorista palestino Hamas, na sexta-feira passada, 22 de fevereiro. Um beijo. Aliás, dois beijos. Não apaixonados como o do pintor austríaco Gustav Klimt, mas constrangedores e infames como o Beijo no Asfalto, de Nelson […]

Arrow right icon Leia mais