Israel e Rússia: Relacionamento à beira do fim?
Daniela Kresch
TEL AVIV – O que Israel temia em relação à Guerra na Ucrânia está acontecendo. A Rússia, com quem Israel tinha ótimos laços diplomáticos há anos, pode cortar relações. Os russos já estavam irritados com Israel porque o país, após algum tempo de hesitação, admitiu publicamente seu apoio moral à Ucrânia. Agora, Moscou acusa Israel de ajudar militarmente os ucranianos – apesar de não haver nenhuma informação concreta sobre isso.
“Israel parece estar fornecendo armas ao regime de Kiev”, escreveu, em um post no Telegram, Dmitry Medvedev, ex-presidente da Rússia e atual vice-presidente do Conselho de Segurança russo, nesta segunda-feira (17 de outubro). “Seria um passo muito imprudente. Isso destruirá todas as relações entre nossos países”.
Um oficial israelense disse ao jornal “Haaretz” que Medvedev estaria reagindo a um tuíte do ministro da Diáspora de Israel, Nachman Shai, no domingo, sugerindo que Israel enviasse logo equipamento militar para a Ucrânia e não apenas material de defesa, como capacetes e coletes à prova de bala, ou ajuda humanitária.
“As dúvidas sobre onde Israel deve ficar neste conflito sangrento acabaram. Não há mais espaço para ser hipócrita. Chegou a hora de fornecermos ajuda militar à Ucrânia como os EUA e a OTAN”, escreveu Nachman Shai no Twitter.
Mas Medvedev poderia estar reagindo, na verdade, a informações anônimas de um alto funcionário ucraniano que disse, na quinta-feira (13 de outubro), que uma empresa privada israelense estaria fornecendo à Ucrânia imagens de satélite sobre a posição de drones do exército russo – fabricados no Irã.
Oficialmente, o que sabemos é que a Ucrânia tentou comprar sistemas de defesa aérea israelenses em várias ocasiões desde o início da guerra, mas Israel, até agora, se recusou a vender por medo de provocar a Rússia. O próprio presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, sempre reclama que Israel não o ajuda, na prática, e se mantém em cima do muro. Mas, ao que parece, Israel estaria ajudando os ucranianos por debaixo dos panos mais do que se imagina.
Quando os russos atacaram a Ucrânia, em fevereiro, muitos israelenses ficaram confusos sobre o que Israel deveria fazer. A maioria achava que deveria seguir os Estados Unidos e os europeus, apoiando totalmente a Ucrânia nessa guerra sem provocação, o que seria o certo a fazer em termos morais. Seria estar do lado certo da História.
Mas alguns especialistas alertaram quanto a isso, dizendo que o tiro sairia pela culatra. Afinal, Israel deveria pensar nas consequências diretas desse passo para o país. Como eu já escrevi neste espaço, Jerusalém fica a 3 mil quilômetros de Kiev, mas estão mais próximos do que se pensa do conflito. É como se a Rússia fizesse fronteira com Israel. Os russos são muito influentes na Síria e estão fortemente presentes no país, apoiando o governo Bashar Assad há uma década.
E, sem os russos, Israel não teria a liberdade atual de agir contra comboios de armas iranianas que tentam chegar à guerrilha Hezbollah, no Líbano, através do solo sírio. São os russos que acalmam o governo Assad sempre que aviões militares israelenses atacam algum desses comboios. Recentemente, no entanto, os russos têm acobertado menos esses ataques.
Quer dizer: estar do lado certo, do lado ucraniano, pode custar caro a Israel. E não apenas na fronteira com a Síria. Os russos estão tentando fechar a Agência Judaica na Rússia (o processo nesse sentido está ainda nos tribunais) desde que Yair Lapid se tornou primeiro-ministro. Lapid é, afinal, um dos maiores críticos da invasão russa, em Israel.
No post do Telegram, Dmitry Medvedev também disse que, se estiver realmente ajudando a Ucrânia, Israel deveria “declarar Bandera e Shukhevych como seus heróis”. Stepan Bandera foi um líder ucraniano de extrema-direita simpatizante do nazismo. Ele foi declarado “Herói da Ucrânia” postumamente em 2010 pelo então presidente ucraniano Viktor Yushchenko, numa medida condenada por diversos países e grupos judaicos. O outro nome citado é o de Roman-Taras Shukhevych, que trabalhou com Bandera.
As palavras de Medvedev novamente colocam a questão nazista no centro desta guerra. Vladimir Putin não se cansa de dizer que a Ucrânia de Volodymyr Zelenskyy é um “país nazista” (mesmo que Zelenskyy seja judeu). O Ministério das Relações Exteriores da Rússia disse, em maio, chegou a dizer que “Israel apoia neonazistas na Ucrânia”.
É incrível como o simbolismo do nazismo tenha tanta força neste conflito. Não sei se Israel está ou não enviando informações ou armas à Ucrânia. Mas, certamente, está realizando cálculos políticos complicados. Se apoiar um lado, perde. Se apoiar outro, também. Ou melhor: se correr o bicho pega, de ficar o bicho come.
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