Israel enfrenta sua maior encruzilhada às vésperas de Rosh Hashaná
Daniela KreschDaniela Kresch
TEL AVIV – Rosh Hashaná é sempre um momento de profunda reflexão, introspecção e renovação. Em Israel, país forjado por narrativas históricas, tradições antigas e uma diversidade de culturas, sempre foi um feriado importante, uma prévia do Yom Kipur, quando as pessoas deveriam fazer um mea culpa e desculpar os erros dos outros.
Este ano, no entanto, o Rosh Hashaná de 5784 acontecerá à sombra da maior encruzilhada que Israel enfrenta em seus 75 anos de existência. A reforma judicial que o atual governo tenta aprovar – à revelia da maioria da população – esgarça o tecido social do país, que pode rasgar.
A coalizão de governo mais direitista, ultranacionalista e religiosa da História de Israel já conseguiu aprovar uma das cláusulas dessa reforma judicial, cujo objetivo escancarado é enfraquecer o Poder Judiciário e, por consequência, a democracia israelense.
A coalizão esquece que a diversidade sempre foi a pedra angular de Israel, uma nação construída por pelo chamado “kibutz galuiot” – o agrupamento das diásporas. Desde os primeiros dias da sua criação moderna, em 1948, Israel recebeu pessoas – principalmente judeus – de diversas origens, formando uma sociedade que, apesar de tantas quedas e erros, prosperou e consolidou o país como uma potência econômica regional.
Dos movimentados mercados de Tel Aviv às ruas históricas da Cidade Velha de Jerusalém, passando por Haifa, Tiberíades, Beer Sheva e Eilat, a interação dinâmica de tradições, línguas e costumes é evidente em cada esquina. Grupos religiosos e étnicos convivem, em geral, pacificamente. Judeus, cristãos, muçulmanos, drusos e muitos outros partilham a mesma terra e vivem lado a lado numa coexistência que, embora tenha os seus desafios, serve como um testemunho do compromisso dos habitantes em levar suas vidas da melhor maneira possível.
É claro que Israel, como qualquer “melting pot” de populações, não está imune aos desafios que a diversidade apresenta. Há tensões alimentadas por queixas históricas e disparidades culturais, religiosas e socioeconómicas. A chave é o diálogo, diriam os mais sábios, e a tolerância. Este governo, no entanto, parece não acreditar nisso.
Para este governo, a “solução” é impor seus valores e atropelar quem não votou nele. “Temos maioria no Knesset, então podemos tudo!”, dizem as vozes mais ignorantes e brutas desta coalizão, enquanto o primeiro-ministro, acuado e enfraquecido em sua soberba e medo da Justiça, se cala.
O silêncio de Benjamin Netanyahu cria um vácuo que é ocupado por radicais, extremistas religiosos, racistas, misóginos e outras pestes, que parecem ter saído de uma caixa de Pandora terrível.
Os ultranacionalistas religiosos querem forjar uma teocracia judaica que dobre ou afugente os seculares ou religiosos light. Querem anexar territórios palestinos e ignorar o resto do mundo. Querem apenas viver em sua bolha ideológica.
Os ultraortodoxos querem continuar com suas vidas extremamente voltadas para a Torá, o que inclui lutar para seus jovens não servirem no exército e não estudarem disciplinas que os integrem no mercado de trabalho, como matemática e inglês. Querem apenas viver em sua bolha religiosa.
E Netanyahu… O que quer Netanyahu, que não deixa seu pedestal? Quer evitar a prisão e que o resto se dane.
A sociedade israelense demonstrou uma resiliência notável, nos últimos 75 anos. O motivo foi a garantia da continuação da diversidade de culturas, estilos de vida, religiões e ideias. Apesar de todas as guerras e conflitos internos, que foram e ainda são muitos, sempre houve uma ideia de compartilhamento de um destino em comum, uma ideia de “lar”. Uma vontade de lutar pela continuação desse experimento chamado Israel.
Sem essa vontade, esse anseio, esse desejo por continuidade com base na diversidade, Israel está a perigo. E é isso que amedronta tanta gente, nesta véspera de Rosh Hashaná.
A esperança é a sociedade civil que acredita na tolerância, no progresso e na paz. No espírito de Rosh Hashaná, temos que recordar a história da jornada de Israel – uma nação nascida de diversas origens, moldada pela História e unida por um destino comum. As lições aprendidas com o seu esforço contínuo para harmonizar várias identidades, devem ser relembradas. Israel precisa continuar a ser uma sociedade plural e próspera, uma sociedade resiliente com uma população determinada em continuar a fazer da diversidade sua fonte de força.
Foto: RiYa/Pixabay
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