Sobre a fala de Lula: a falsa equivalência entre Israel e Alemanha nazista
Miguel Fausto*
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, estabelece uma equivalência entre Israel e a Alemanha nazista, sugerindo que as ações de ambos não têm paralelo na história. Bastaria Lula ter olhado para Abiy Ahmed, primeiro-ministro etíope presente no momento da declaração, para se dar conta da falta de verdade nessa afirmação, no que tange a Israel. Ahmed ordenou uma ação militar na região do Tigré, no contexto de um conflito civil, que deixou mortos na casa das centenas de milhares e desalojados na casa dos milhões.
Não apenas a afirmação de Lula é falsa como ela busca colocar Israel em pé igualdade com a atrocidade do nazismo. A equiparação não se sustenta nos números e não se sustenta numa análise qualitativa. Não se tem notícia de um grupo de fanáticos judeus que tenha, na Alemanha dos anos 30, massacrado civis alemães, estuprado mulheres com requintes de crueldade nem sequestrado famílias e idosos.
Mas os civis palestinos não são vítimas da ação militar de Israel? Sem dúvida. E acredito que Israel comete crimes de guerra na sua resposta militar em Gaza, causando uma crise humanitária gravíssima. Dito isso, a comparação de Lula sugere que Israel é o único vilão num mundo de mocinhos, o nazista do presente. Não haveria, segundo a lógica de Lula, outros países que tenham empreendido algo digno de ser chamado de atrocidade, a não ser a Alemanha hitlerista e Israel. Lula diz que o que ocorre em Gaza “não existiu em nenhum outro momento histórico”, a não ser no tempo de Hitler.
Israel ser colocada como a única nação no presente e como uma das únicas duas nações no curso de TODA história que teria cometido graves crimes contra humanidade é o que está sendo dura e legitimamente criticado pela comunidade judaica e também por outras vozes. Não está a história de todos os países manchada de sangue? Por acaso nós esquecemos que vivemos num país de passado escravocrata e de presente marcadamente racista? Por acaso ninguém leu sobre a invasão russa na Ucrânia?
Pintar Israel como o único país digno de alta repreensão moral é de uma seletividade que, sim, justifica suspeitas de antissemitismo. Evoca a velha ideia do judeu como representante único das mazelas do mundo e como bode expiatório dessas mazelas. Fazer isso invocando a figura do maior algoz do povo judeu é requinte de crueldade. Nós, judeus e não-judeus, merecemos uma esquerda bem melhor do que esta.
*Miguel Fausto é psicólogo, formado pela Universidade de São Paulo.
Este texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel
Artigos Relacionados
Três reservistas e três opiniões: abandonar o exército por causa da reforma política?
16 de março de 2023
Daniela Kresch TEL AVIV – Não há muitas coisas que são tabu em Israel. Os israelenses criticam em público quase tudo, são céticos, fazem perguntas. Mas há uma exceção: o exército. Em geral, as críticas ao exército são limitadas e com luvas de pelica. As Forças de Defesa de Israel ainda são vistas como o […]
Israelenses estão incendiando a Patagônia?
15 de janeiro de 2026
Antes de ir direto ao assunto, é importante recordar brevemente alguns antecedentes históricos que auxiliam em uma melhor compreensão dos fatos. A Semana Trágica e as simpatias nazifascistas na Argentina O antissemitismo, como era de se esperar, não é um fenômeno novo na Argentina, e da mesma maneira que em outros países, há muito tempo […]
O CICLO DE VIOLÊNCIA APÓS O CONFLITO ENTRE ISRAEL E JIHAD ISLÂMICA
15 de agosto de 2022
Daniela Kresch TEL AVIV – Pode ter havido um cessar-fogo no conflito de três entre Israel e o grupo terrorista Jihad Islâmica Palestina (JIP), que aconteceu entre os dias 5 e 7 de agosto. Mas ele não acabou. Desde a trégua, não passa um dia sem uma notícia relacionada a um possível retorno nas hostilidades. […]