Sobre a fala de Lula: a falsa equivalência entre Israel e Alemanha nazista
20 fev 24

Sobre a fala de Lula: a falsa equivalência entre Israel e Alemanha nazista

Miguel Fausto*

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, estabelece uma equivalência entre Israel e a Alemanha nazista, sugerindo que as ações de ambos não têm paralelo na história. Bastaria Lula ter olhado para Abiy Ahmed, primeiro-ministro etíope presente no momento da declaração, para se dar conta da falta de verdade nessa afirmação, no que tange a Israel. Ahmed ordenou uma ação militar na região do Tigré, no contexto de um conflito civil, que deixou mortos na casa das centenas de milhares e desalojados na casa dos milhões.

Não apenas a afirmação de Lula é falsa como ela busca colocar Israel em pé igualdade com a atrocidade do nazismo. A equiparação não se sustenta nos números e não se sustenta numa análise qualitativa. Não se tem notícia de um grupo de fanáticos judeus que tenha, na Alemanha dos anos 30, massacrado civis alemães, estuprado mulheres com requintes de crueldade nem sequestrado famílias e idosos.

Mas os civis palestinos não são vítimas da ação militar de Israel? Sem dúvida. E acredito que Israel comete crimes de guerra na sua resposta militar em Gaza, causando uma crise humanitária gravíssima. Dito isso, a comparação de Lula sugere que Israel é o único vilão num mundo de mocinhos, o nazista do presente. Não haveria, segundo a lógica de Lula, outros países que tenham empreendido algo digno de ser chamado de atrocidade, a não ser a Alemanha hitlerista e Israel. Lula diz que o que ocorre em Gaza “não existiu em nenhum outro momento histórico”, a não ser no tempo de Hitler.

Israel ser colocada como a única nação no presente e como uma das únicas duas nações no curso de TODA história que teria cometido graves crimes contra humanidade é o que está sendo dura e legitimamente criticado pela comunidade judaica e também por outras vozes. Não está a história de todos os países manchada de sangue? Por acaso nós esquecemos que vivemos num país de passado escravocrata e de presente marcadamente racista? Por acaso ninguém leu sobre a invasão russa na Ucrânia?

Pintar Israel como o único país digno de alta repreensão moral é de uma seletividade que, sim, justifica suspeitas de antissemitismo. Evoca a velha ideia do judeu como representante único das mazelas do mundo e como bode expiatório dessas mazelas. Fazer isso invocando a figura do maior algoz do povo judeu é requinte de crueldade. Nós, judeus e não-judeus, merecemos uma esquerda bem melhor do que esta.

*Miguel Fausto é psicólogo, formado pela Universidade de São Paulo.

Este texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel

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