No espírito das festas de Tishrei, dois anos após o 7 de Outubro: Reflexões sobre a esperança
Revital PolegRevital Poleg
Quase dois anos se passaram desde que nossas vidas foram viradas de cabeça para baixo. Dois anos desde o 7 de outubro, quando o “normal e rotineiro”, que em Israel nunca foi realmente normal como em grande parte do mundo, deixou de ser a nossa realidade. Aprendemos a funcionar dentro dessa nova realidade, não a aceitá-la ou resignar-nos a ela, mas vê-la como transitória por sua própria natureza, e aspirar constantemente a um retorno à rotina o mais rápido possível – ainda que essa “nova rotina” seja para sempre diferente daquela que conhecíamos. E dentro desses dois anos, já é a segunda vez que marcamos as festas de Tishrei, tão centrais para a nossa vivência, e desta vez parece ainda mais difícil do que no ano passado.
Quem desejar olhar a realidade difícil por lentes pessimistas encontrará muitas razões para isso: os reféns que ainda estão no inferno do Hamas – vivos e mortos; uma guerra que já deveria ter terminado e continua a sangrar, cobrando de nós um preço pesado de mortos e feridos, no corpo e na alma, inclusive entre civis de Gaza; um governo que promove medidas que não contam com a confiança da maioria da população há dois anos, segundo todas as pesquisas realizadas desde 7 de outubro; uma deterioração sem precedentes da nossa posição internacional – e tudo isso é apenas parte do quadro, já insustentável por si só.
Mas não. Justamente neste momento das festas de Tishrei, tempo de reflexão, de recolhimento da mente e do coração, escolho não falar do mal, mas da esperança. Porque, apesar de tudo o que foi dito acima, apesar das dificuldades reais e dos desafios complexos que jamais havíamos vivido, há em nós a esperança de transformar esta realidade em um futuro renovado e melhor. Quero me agarrar a essa esperança, que é um dos segredos revelados da existência judaica. É ela que acende em nossos corações a luz e a orientação, conduzindo-nos adiante, como a “coluna de fogo” que ia diante do acampamento”.
De onde nasce essa esperança?, vocês perguntam. Pois bem, podemos começar com uma palavra tão simples, quase trivial na língua hebraica: “Shalom”. Palavra que nos acompanha desde a infância, entre as primeiras que cada bebê aqui aprende. “Shalom”, cuja raiz é “Shalem” (inteiro, completo), é a saudação do nosso dia a dia – na rua, em casa, ao telefone e mais. Ao mesmo tempo, faz parte inseparável da tradição judaica e de suas orações – seja no desejo semanal de “Shabat Shalom”, seja nas preces pela paz em nossa terra e entre nós, pela paz entre os povos, pela ausência de guerra, pela integridade física e espiritual, e pelas relações saudáveis entre pessoas, grupos e nações. Assim, “Shalom” é sempre, ao mesmo tempo, saudação e expressão de esperança.
Passaria pela sua cabeça encontrar um amigo na rua e cumprimentá-lo com a palavra “paz”? Entrar em uma loja e saudar assim o vendedor? Provavelmente não. Aqui, em Israel, isso é rotina diária – justamente porque “Shalom” não é apenas uma palavra, mas parte essencial da nossa identidade, da esperança que pulsa em nossas vidas, fundamento vivo e presente, que nos dá forças para acreditar em um futuro melhor.
Muito se falou, nesses dois anos, sobre a resiliência da sociedade israelense – algo que se manifestou de forma extraordinária já no próprio dia do massacre de 7 de outubro. Enquanto a crise multidimensional que o Estado de Israel viveu naquela manhã de Shabat desafiou duramente a resiliência nacional, obrigando suas instituições a reagir diante de uma realidade existencial tão dura e totalmente inesperada – a resiliência social, parte central da resiliência nacional, revelou-se quase de imediato em toda a sua beleza e força. Trouxe à tona, de maneira impressionante, as capacidades da sociedade civil israelense, de suas comunidades e indivíduos, não apenas para lidar com a tragédia, mas também para se levantar do ponto mais baixo, em meio a um medo profundo, perigo real, incerteza e caos absoluto; assumir responsabilidade pessoal e coletiva; e iniciar e agir em milhares de iniciativas, pequenas e grandes, que nasceram naquele mesmo dia – muitas das quais continuam até hoje – para responder a necessidades que jamais conhecemos ou enfrentamos. Tudo isso a partir de um sentido de solidariedade mútua que atravessa todas as divisões geográficas, socioeconômicas, políticas, religiosas ou outras.
Essa resiliência, parte integrante da experiência israelense, encontra sua força naquela esperança que habita em nós. Está intimamente ligada à esperança como principal preditora da capacidade de enfrentar crises – esperança que atua como motor interno, permitindo que pessoas e sociedade mantenham a motivação, cultivem um otimismo, ainda que cauteloso, fortaleçam o senso de pertencimento e segurança, e sigam aspirando a um futuro melhor.
Segundo o pensamento do rabino Jonathan Sacks, o otimismo é a crença de que o mundo mudará para melhor, enquanto a esperança é a crença de que juntos podemos melhorar o mundo. Ambas são necessárias para a resiliência social, pois são elas que movem os cidadãos a iniciar processos de reconstrução, de ajuda e de apoio, com a confiança de que conseguirão se recuperar do trauma.
Não se enganem a nosso respeito, os israelenses. Há entre nós fraturas e discordâncias complexas e, apesar da nossa resiliência, não somos inabaláveis em todos os momentos e circunstâncias. Não são poucos os momentos de queda, momentos de dor imensa, de tristeza, de raiva, de preocupação concreta e até de medo existencial; momentos que despertam em muitos de nós perguntas sobre o futuro, apreensões quanto aos rumos que o Estado toma, muitas vezes por causa daqueles líderes que hoje o conduzem, e também questões profundas sobre a essência e a identidade do Estado que deixaremos a nossos filhos e netos.
E justamente aí, nesses momentos de queda, é a esperança que brota em nossos corações – a esperança que recalibra nossa bússola, que ilumina o caminho a seguir à luz da “coluna de fogo”. É ela que nos leva às ruas para protestar e exigir mudanças; para clamar pela libertação de todos os reféns e pelo fim imediato da guerra. É ela que leva tantos de nós, na sociedade civil, a agir, a criar, a assumir responsabilidades e a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, não apenas para recolocar o país no caminho certo, que restaure sua dignidade e preserve seus valores como Estado judeu e democrático, como está consagrado na Declaração de Independência, mas também para aprimorá-lo, refiná-lo e propor um futuro melhor para nossos filhos, nossos netos e, não menos importante, para o povo judeu, para quem Israel também é lar. Um futuro que nos garanta vidas de paz entre nós e paz com nossos vizinhos, por gerações. Pois, no coração de muitos, permanece a certeza serena de que essa mudança não é apenas desejável, mas alcançável.
Não se pode esperar outra coisa de um povo cujo hino nacional se chama Hatikva – ‘A Esperança’ – e que já atravessa dois mil anos de história. Pode até soar trivial, mas é a mais pura verdade.
E é por isso que o Ano Novo tem de ser, simplesmente, melhor. Shaná Tová!
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: WikimediaCommons
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