Dois anos do dia em que Israel parou
Daniela KreschDaniela Kresch
TEL AVIV – Dia 7 de outubro de 2023. 6:29 da manhã. Sábado, feriado de Simchat Torá. Na TV, replay de uma programação mundana. De repente, a TV começa a mostrar, do lado direito da tela, uma lista de localidades que estão sob ataque de mísseis e foguetes. Nada muito diferente do cotidiano (Israel é bombardeado amiúde quase desde sua independência). Mas, dessa vez, os nomes não param. A lista é enorme: Bat-Yam, Yad Mordechai, Netiva HaAssará, Palmachim, Rishon LeTzion…
Um novo programa começa e a lista continua: Or Haner, Erez, Nahal Oz, Kryat Gat, Sde Moshe, Sderot, Zikim… O programa continua a lista não para: Kissufim, Mefalssim, Nir Oz, Nirim, Sufa, Alumim…
Na tela da TV, enquanto o país acorda para o pior dia de sua história, uma reportagem pré-gravada mostra uma nova loja de produtos sobre Harry Potter em Tel Aviv. Do lado direito da tela, a lista continua: Kerem Shalom, Ein HaShloshá, Karmei Gat, Sderot, Nir Am, Holit, Yevul…. Os nomes não param de aparecer por minutos a fio, cada vez com mais rapidez: Rehovot, Beit Ezra, Guivati, Kfar HaNaguid, Yavne, Nir Yitzhak, Ashkelon, Ashdod…
Nos últimos dois anos, desde o fatídico 7 de outubro de 2023, muito se discute sobre a reação de Israel à invasão de mais de 6 mil palestinos de Gaza ao país, que resultou, em poucas horas, em mais de 1.200 mortos, 251 sequestrados e cerca de 10 mil feridos. Discute-se se a resposta israelense à guerra que lhe foi imposta após o maior atentado terrorista per capita da História moderna – e a maior matança de judeus depois do Holocausto – é exagerada, se a destruição de grandes partes de Gaza e a morte de milhares de terroristas do Hamas e de civis inocentes na região pode ser definida por aquela palavra infame que começa com “g”. Ou se outra palavra com “g” – guerra – é a mais correta para este casus belli que o então líder do Hamas, Yahya Sinwar, decidiu realizar, com a certeza absoluta de que Israel reagiria.
Há incríveis dois anos, o mundo discute se Israel deve ser apenas ser boicotado e isolado no mundo ou se o melhor mesmo seria a criação de uma Palestina “do Rio ao Mar” em seu lugar. Hordas de manifestantes em ruas, campi universitários e outros lugares da Europa, Estados Unidos e Brasil, entre outros, culpam, desde o próprio dia 7 de outubro, Israel por tudo. O grupo terrorista jihadista Hamas, que começou a guerra, é menos cobrado ou pressionado (e é até mesmo celebrado por muitos).
Internamente, centenas de milhares de israelenses, cansados de uma guerra que, mesmo justa a princípio, poderia e deveria ter acabado há meses, também se manifestam: 80% querem o fim desta guerra porque sabem que só assim é possível reaver os 48 reféns ainda em cativeiro (20 ainda vivos) e resgatar o ethos de “não deixamos ninguém para trás” do país. Sabem que é impossível acabar totalmente como Hamas e o jihadismo mundial, assim como é impossível acabar com o antissemitismo milenar que permeia culturas.
Sabem que os reservistas precisam voltar às suas famílias. Que é preciso evitar que mais soldados jovens morram (quase mil tombaram nestes dois anos), que é fundamental começar o árduo trabalho de resgatar a tão abalada imagem de Israel no mundo para que o país possa voltar a se orgulhar de tudo o que alcançou desde 1948 e mudar tudo o que ainda é preciso consertar. Sabem que, mesmo que o exército esteja lutando em muitas frentes (Gaza, Líbano, Irã, Iêmen…), erros sempre são cometidos em guerras e civis inocentes morrem. Ninguém celebra mortes de inocentes. Ninguém.
Mas quero deixar de lado essas discussões para relembrar o 7 de outubro. Muita gente já esqueceu. Passaram-se 2 anos, né? Muita água rolou debaixo da ponte, muitos casamentos e nascimentos, novos filmes no cinema e nos streamings. Muita praia, muito carnaval.
Mas, em Israel, o trauma é como uma tatuagem. Não sai. A tatuagem é ainda nova, não desbotou de jeito algum. Neste dia 7 de outubro de 2025, quero relembrar a todos, cronologicamente, como foi o pior dia do país. E, no meu caso, o pior dia da minha vida.
Começou como citei acima, às 6:29 da manhã. A TV mostrava, do lado direito da tela, uma lista de nomes de cidades que estão sob ataque de mísseis e foguetes.
06:54 da manhã. Após 25 minutos de ataques aéreos incessantes, os principais canais de TV e rádio cancelam a programação normal e passam a transmitir ao vivo. Os jornalistas, que mal acabam de acordar, não sabem ainda o que dizer a não ser que é preciso procurar abrigo nas cidades afetadas. Ninguém ainda sabe o que está acontecendo. As primeiras imagens de prédios em chamas atingidos por projéteis começam a aparecer. E pipocam as primeiras informações de tiros disparados contra carros nas proximidades da fronteira com a Faixa de Gaza.
07:32 da manhã. Pela primeira vez, a minha cidade entra na lista das localidades bombardeadas e a sirene antiaérea começa a soar no meu bairro. Eu acordo. Ainda acho que se trata “apenas” de mais um bombardeio cotidiano. Vou para o quarto reforçado da minha casa, que funciona também como quarto da minha filha, e sento na cama dela com cuidado, para não acordá-la.
O primeiro vídeo com imagens dos terroristas do Hamas dentro de Israel começa a circular. É uma imagem icônica: uma van branca com homens mascarados e armados dentro de Sderot, a mais de 1 km da fronteira como Gaza. Em meus grupos de WhatsApp, as pessoas ainda não entendem essa imagem. O que ela quer dizer?

Então, os jornalistas nas rádios, TVs e sites avisam: fechem as janelas e as portas porque terroristas invadiram o país. Corro para trancar a porta da minha casa com a trava de segurança e mais uma sirene soa. Volto para o quarto reforçado, agora com o coração palpitando. Ninguém, nunca, imaginou que algo assim pudesse acontecer. Incredulidade.
07:50 da manhã. As primeiras entrevistas com moradores das comunidades na fronteira com Gaza começam a passar, ao vivo, nas TVs e rádios. Pessoas desesperadas, escondidas em seus bunkers, mas que escutam tiros do outro lado da porta, gente gritando, batidas na janela, explosões. Relatam, aos prantos, cheiro de queimado, de incêndios. Todo o país está acordado, agora, em desespero ou ouvir os relatos e começar a entender o que está acontecendo.
Um jornalista do Canal 12 apela, ao vivo, ao exército para que proteja os kibutzim, moshavim e cidades na fronteira com Gaza. Ele fala especificamente sobre o kibutz Beeri, que terá, ao final do dia, metade da população assassinada ou sequestrada. Ninguém ainda entende como é possível que as forças armadas não estejam em massa nos locais invadidos! O que está acontecendo???
08:46 da manhã. O país inteiro em choque. Os relatos se tornam mais urgentes e chocantes. Os vídeos dos milhares de terroristas palestinos invadindo Israel com armas em punho viralizam. Repórteres se emocionam ao relatar o que estão descobrindo. Em meio à tensão, às sirenes, aos incêndios provocados pelos mísseis e foguetes, começam a surgir as primeiras informações sobre o sequestro em massa de civis – incluindo bebês, crianças e idosos – e de soldados pelos terroristas. Mais informações de mortos nas ruas e estradas. Como pode ser que isso esteja acontecendo???
08:57 de manhã. A palavra “guerra” começa a ser dita claramente.
09:24 da manhã. Pais desesperados começam a relatar que seus filhos que foram ao um festival de música perto do kibutz Reim. Pela primeira vez, ficamos sabendo do Festival Nova e que centenas de jovens que estavam lá não atendem seus telefones. Os que atendem, contam histórias terríveis sobre como foram perseguidos por terroristas e tiveram que correr para se esconder num campo adjacente. O âncora da TV mal acredita no que está ouvindo. “Vamos tentar falar com o seu filho”, diz ele. “Não! Não dá”, responde uma mãe. “Você não está entendendo. Ele não pode falar. Está escondido num arbusto, com terroristas atirando contra todo mundo!”.
11:03 da manhã. Este foi o momento em que eu deixei de lado todos os anos de controle emocional jornalístico e comecei a chorar. Ayelet, moradora do kibutz Beeri, implora ao vivo no Canal 12 para que alguém vá salvá-la. “Estão tentando entrar na minha casa, agora. Terroristas”, ela diz, meio sussurrando, meio gritando (se é que isso é possível). Sua voz é de desespero e cansaço. “Não sei o que fazer, estou com duas crianças pequenas aqui. Por que ninguém vem?”, ela chora ao telefone. “Só tem aqui terroristas que estão nos matando e colocando fogo nas nossas casas…”
03:57 da tarde. As informações são de 40 mortos e 780 feridos. Esse número, que parecia incrível, chegaria a mais de 1.200 mortos, 251 sequestrados e mais de 20 mil feridos em apenas algumas horas. Entre os mortos, 778 civis (dos quais 70 estrangeiros e 62 crianças).
07:41 da noite. O vídeo do sequestro da jovem Noa Argamani começa a circular. Seu rosto desesperado enquanto ela é levada para Gaza por terroristas mascarados. Essa imagem, junto com a do sequestro de Shiri Bibas e seus dois filhos (Ariel, de 4 anos, e Kfir, de 9 meses), que foram assassinados no cativeiro, adicionaram mais um nível de choque a todas as imagens e sons que os israelenses testemunharam, nesse dia.
À noite, a guerra havia sido oficialmente decretada. A vida de todos os moradores deste país mudou drasticamente. Nunca mais será a mesma. O que se seguiu foi guerras concomitantes em várias frentes, embates políticos, frustrações diplomáticas e acusações internacionais infundadas. E muitas vidas ceifadas. As tentativas internas de pressionar este governo – o pior da história deste país – a se responsabilizar pela situação interna e o isolamento externo de Israel continuam, dois anos depois do 7 de outubro.
Espero não precisar escrever um texto relembrando tudo isso no aniversário de 3 anos dessa data tão horrenda. Que todos voltem para casa. Agora!
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