Morre Matti Caspi, o “embaixador” da música brasileira em Israel
08 fev 26

Morre Matti Caspi, o “embaixador” da música brasileira em Israel

Daniela Kresch

Neste domingo, 8 de fevereiro de 2026, Israel perdeu Matti Caspi, um dos mais queridos ícones musicais do país. O músico, que faleceu aos 76 anos, é parte indelével da memória emocional coletiva dos israelenses. Suas canções, em geral baladas profundas, são parte da trilha sonora de Israel desde os anos 1970. Sua voz notável e familiar é reconhecida por todos, mesmo pelas novas gerações que não estavam vivas no auge de seu sucesso.

A morte de Matti Caspi deixa um vazio imenso na música local. Mas é mais devastadora ainda para os brasileiros em Israel. Ele deixa uma saudade profunda na comunidade que via nele quase como um embaixador da cultura brasileira no país.

Caspi morreu depois de uma corajosa batalha contra o câncer, luta que ele tornou pública em meados de 2025 ao buscar apoio da mídia e dos fãs para tratamentos não cobertos pelo sistema de saúde. Seus últimos momentos foram marcados pela resiliência. Em entrevista ao Canal 12, ele declarou sua determinação em lutar “de todas as maneiras possíveis”. Ele chegou a arrecadar cerca de US$ 1,5 milhão em uma campanha de financiamento coletivo para custear sua medicação. Apesar de uma melhora temporária, seu estado puorou drasticamente nos últimos dias, levando ao seu falecimento neste domingo.

A conexão de Caspi com o Brasil começou em meio a um momento histórico de euforia nacional: a participação da Seleção de Israel na Copa do Mundo de 1970, no México. Israel foi eliminado ainda na primeira fase, mas o brilho do Brasil, que se tornou tricampeão naquele ano, encantou os israelenses e abriu as portas para uma febre de ritmos brasileiros no país que completava apenas 22 anos de idade.

As primeiras músicas israelenses no estilo brasileiro começaram no fim da década de 1960 com a canção estilo Bossa Nova “Boi LeEilat” (Venha a Eilat), de 1968, com melodia de Nurit Hirsh e letra de Yaron London. A partir de 1970, lindas versões em hebraico de músicas de Dorival Caymmi e outros compositores brasileiros explodiram nas rádios locais.

Mas foi um projeto capitaneado por Matti Caspi que levou a música brasileira a níveis astronômicos em Israel. Em 1977, ele e outros artistas gravaram o disco “Eretz Tropit Yafa” (Lindo País Tropical), que no ano seguinte virou especial de TV com nomes como Korin Alal e Yehudit Ravitz. O disco trouxe versões maravilhosas para clássicos de Vinícius de Morais, Tom Jobim, Jair Rodrigues, Chico Buarque e Jorge Ben Jor.

Foi um sucesso estrondoso que consolidou a música brasileira como influência marcante na música israelense pelos anos 80 e 90. Matti Caspi se tornou presença constante em eventos brasileiros, colaborando frequentemente com músicos brasileiros locais.

Mais um laço com o Brasil: em 1989, ele conheceu a também cantora Raquel Wenger enquanto ela trabalhava na embaixada brasileira em Tel Aviv. O casal emigrou para o Canadá, se casou na Califórnia em 1994 e teve duas filhas, Suyan e Sean.

Aliás, não foi a última vez que Caspi deixou Israel, país com o qual mantinha um relacionamento complicado de amor e distância. Infelizmente, durante a pandemia de Covid-19, Caspi se tornou uma voz negacionista de vacina, estilo Eric Clapton. Ele considerava a pandemia um engodo. Caspi se tornou uma voz de um dos subgrupos antivacina em Israel, o dos anti-vaxxers e “esotéricos”, que creem em conspirações como a presença de chips nas vacinas e a intenção chinesa de dominar o mundo ou que esnobam e repelem a medicina moderna. Depois do começo da pandemia, ele foi morar na Itália e se recusou a voltar a Israel antes que acabem todas as instruções de distanciamento social e uso de máscaras.

Mas nada é mais importante do que o legado de cinquenta anos de música que faz parte da memória emocional de gerações de israelenses. Sua partida é uma perda irreparável para a cultura de Israel e um momento de profunda tristeza para a comunidade brasileira.

 

Foto: Wikicommons

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