O que as capitais árabes procuram nas eleições de Israel
14 out 26

O que as capitais árabes procuram nas eleições de Israel

Revital Poleg

Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, aparece de uniforme, em primeiro plano; Benjamin Netanyahu, ao fundo. Foi assim que a revista política Al Majalla, editada em Londres com financiamento saudita, escolheu ilustrar uma edição dedicada às eleições em Israel e à questão de quem conseguirá formar o próximo governo. A imagem não constitui prova de apoio saudita a Eisenkot. Mas revela algo mais amplo: as eleições de 27 de outubro, as primeiras desde os ataques de 7 de outubro, não são vistas na região como uma questão exclusivamente interna de Israel.

Nas capitais árabes, não se acompanham apenas quem vencerá, mas também o mecanismo que determinará a formação do governo: quem conseguirá chegar aos 61 assentos no Knesset, a maioria mínima necessária para formar uma coalizão, quais alianças serão possíveis, que peso terão os partidos árabes e qual será o grau de estabilidade do próximo governo. A cobertura da imprensa árabe também se detém em questões que muitos leitores israelenses tendem a considerar meramente técnicas, como o nível de participação do eleitorado árabe israelense e as diferentes fórmulas para compor uma maioria parlamentar. Ao mesmo tempo, atores árabes mantêm contatos com diferentes figuras do sistema político israelense, entre elas pessoas próximas a Eisenkot, Bennett e Lapid, seguindo uma lógica pragmática de manter canais abertos com qualquer um que possa vir a ocupar o cargo de primeiro-ministro.

Os interesses da Jordânia e do Egito
Por trás desse interesse comum, porém, há interesses nacionais bastante distintos. A Jordânia observa as eleições sobretudo a partir da questão da Cisjordânia e do temor de um deslocamento de palestinos para o outro lado do rio Jordão. Para Amã, não se trata apenas de uma controvérsia diplomática, mas de uma possível ameaça à estabilidade interna e ao equilíbrio demográfico e político do reino. O rei Abdullah já descreveu o que chamou de “apetite expansionista do governo israelense” como uma ameaça regional, e no debate político jordaniano ganham força alertas sobre uma possível escalada caso se forme em Israel um governo disposto a adotar uma linha ainda mais dura na Cisjordânia.

O Egito enxerga o cenário por outra lente. Sua principal preocupação é a possibilidade de que moradores de Gaza sejam empurrados para o Sinai, hipótese que o Cairo considera uma ameaça estratégica direta e inaceitável. O ministro das Relações Exteriores egípcio deixou claro que o país trabalhará com qualquer governo que venha a ser formado em Israel, mas, ao mesmo tempo, criticou diretamente Netanyahu pelo atraso em iniciativas de cessar-fogo em Gaza. Esse talvez seja um dos elementos centrais para compreender a lógica regional: os países árabes não procuram necessariamente um governo “conveniente” para Israel nem simplesmente um governo menos hostil a seus próprios interesses, mas um governo com o qual considerem possível chegar a entendimentos e em cuja capacidade de cumpri-los possam confiar.

O cálculo complexo do Golfo
Nos países do Golfo, o cálculo é ainda mais complexo. De um lado, a questão palestina continua impondo limites claros ao avanço da normalização, sobretudo no caso saudita, onde se tem reiterado que não haverá normalização sem uma perspectiva clara para a criação de um Estado palestino. De outro, em parte do Golfo existe também um interesse evidente na continuidade da pressão israelense sobre o Irã, seus aliados e grupos apoiados por Teerã.

Não há necessariamente uma contradição: o mesmo governo israelense pode ser visto como problemático na questão palestina e, ao mesmo tempo, como eficaz no enfrentamento ao Irã. É justamente essa tensão que ajuda a explicar por que uma mudança de governo em Israel não se traduz automaticamente em uma preferência inequívoca.

Um governo alternativo tampouco representaria uma melhora para todos os atores regionais. O Catar é o exemplo mais evidente: Naftali Bennett prometeu que, se voltar ao cargo de primeiro-ministro, classificará o país como “Estado inimigo”. Na Jordânia, porém, coloca-se uma questão ainda mais profunda: uma troca de governo modificaria os objetivos estratégicos de Israel ou apenas os meios utilizados para alcançá-los? Segundo uma das leituras presentes no debate regional, um governo liderado por Eisenkot poderia adotar uma postura mais moderada na Síria, no Líbano e em Gaza, sem necessariamente alterar a política de longo prazo de Israel na Cisjordânia e em relação aos assentamentos.

Perspectivas de Líbano e Síria
O Líbano talvez apresente o paradoxo mais interessante. Um governo israelense sem Netanyahu poderia, na realidade, criar um desafio ainda mais complexo para Beirute se conseguisse combinar firmeza militar com flexibilidade diplomática e conquistar maior legitimidade internacional. O presidente libanês Joseph Aoun formulou a questão de maneira simples: os próximos governos desejarão estabilidade e segurança ou a continuidade dos confrontos na fronteira? Na Síria, a expectativa segue lógica semelhante. Não se espera necessariamente uma mudança nas regras do jogo, mas um governo menos propenso à escalada e mais disposto a levar em conta a posição de Washington.

O dia seguinte: Riscos e Oportunidades
É daí que emerge o cenário do dia seguinte às eleições. A continuidade da atual coalizão, a formação de um governo alternativo ou um impasse político não representam três cenários de “bom” ou “ruim”, mas três combinações distintas de riscos e oportunidades. Um governo alternativo poderia abrir espaço para novos entendimentos, mas sua composição determinaria quais compromissos seria realmente capaz de cumprir. Um impasse poderia dificultar acordos de longo prazo, embora, aos olhos de alguns vizinhos, também pudesse servir de freio a iniciativas israelenses percebidas como ameaçadoras.

Talvez este seja o aspecto mais revelador do olhar regional sobre as eleições israelenses: a questão não é apenas quem vencerá, mas que tipo de ator regional Israel escolherá ser. Para Jordânia e Egito, estão em jogo segurança e estabilidade. Para os países do Golfo, as condições para a cooperação regional e o equilíbrio frente ao Irã. Para Líbano e Síria, fronteiras, soberania e risco de escalada. Esses interesses não desaparecerão no dia seguinte às eleições, mesmo que mude o nome do primeiro-ministro. Ao contrário, continuarão a delimitar a margem de manobra de qualquer novo governo israelense.

Por isso, uma mudança de liderança, caso ocorra, não constituirá por si só uma “solução regional”. Poderá abrir novas possibilidades, mas serão a política adotada e a composição da coalizão que determinarão se elas poderão de fato ser concretizadas.

Nesse sentido, o olhar das capitais árabes sobre as eleições em Israel também funciona como um espelho para o próprio país: lembra que o próximo governo não atuará no vazio, mas dentro de um sistema regional em que cada decisão israelense será lida de maneira distinta e cada capital formulará sua própria pergunta sobre o Israel que emergirá depois de 27 de outubro.

Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Foto: Ilustração utilizada pela revista saudita Al Majalla para abordar as eleições em Israel, destacando Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das FDI, em primeiro plano, com Benjamin Netanyahu ao fundo.

 

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