O desafio turco de Israel: entre a parceria forçada e o confronto estratégico
25 fev 26

O desafio turco de Israel: entre a parceria forçada e o confronto estratégico

Revital Poleg

 

Enquanto os olhos do mundo se voltam para Washington, onde se reuniu na última semana o “Conselho de Paz” de Donald Trump para a reconstrução de Gaza, e para Teerã, onde a tensão com os Estados Unidos e Israel está em ponto de ebulição, ocorre um processo profundo e desafiador: a reconfiguração das relações Israel-Turquia. 

Não se trata de “apenas mais uma crise” na longa série de altos e baixos que marcaram os laços entre os dois países ao longo dos anos, mas de uma mudança absoluta de paradigma: a Turquia de 2026 não se contenta com retórica; ela move contra Israel uma campanha institucional abrangente, enquanto se torna, paradoxalmente, um “vizinho” influente e problemático em nossas duas frentes mais sensíveis: Gaza e Síria.

Para entender as motivações do presidente turco Recep Tayyip Erdogan, é preciso olhar além das manchetes. Ele opera a partir de uma visão estratégica de “restaurar a antiga glória” (Neo-otomanismo), que busca posicionar a Turquia como uma potência regional dominante e uma ponte indispensável entre o Ocidente e o mundo muçulmano. Para ele, o enfraquecimento da dominância israelense é condição necessária para consolidar a hegemonia turca, identificando a atual fraqueza política de Israel e seu relativo isolamento internacional como uma oportunidade histórica para se projetar como a voz moral do “mundo oprimido”.

Contudo, Erdogan é, antes de tudo, um estrategista de sobrevivência que entende que o caminho para o coração de Trump passa pela relevância prática. Ele foi um dos primeiros a confirmar sua adesão ao Conselho de Paz de Trump para Gaza, para o qual foi convidado pelo presidente americano, que expressa por ele amizade e apreço.

Para Erdogan, Gaza não é apenas uma questão humanitária, mas um “ativo” político que lhe confere acesso ao que Israel percebe como seu espaço de soberania e segurança – um “lugar à mesa” a partir do qual pode influenciar o futuro da Faixa em um sofisticado jogo duplo: desfrutando da legitimidade de ser parceiro em um plano de paz americano, enquanto aperta o cerco contra Israel em outras frentes.

Com efeito, a visão estratégica do líder turco e o vácuo diplomático na região permitem essa inserção, mas é preciso notar que o envolvimento turco em Gaza não é um cheque em branco. Israel opôs-se firmemente a qualquer envolvimento militar turco e definiu linhas vermelhas claras, principalmente a não colocação de tropas turcas no solo da Faixa. Esta posição, aceita pela administração Trump, foi de fato imposta a Ancara; Erdogan, com seu pragmatismo característico, optou por não “romper totalmente” com Israel nesta questão, talvez porque a própria Turquia não esteja ansiosa por assumir uma responsabilidade de segurança sangrenta ou por um confronto direto com o Hamas, limitando sua influência real aos campos civil, humanitário e religioso.

Ao contrário do passado, quando Ancara se contentava com gestos simbólicos, hoje ela trava contra Israel uma “guerra por outros meios”. A campanha jurídica que a Turquia lidera em instâncias internacionais, incluindo o apoio ativo a denúncias de crimes de guerra, o auxílio a processos no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) e a promoção de iniciativas de isolamento na ONU, visa consolidar uma percepção de culpa israelense duradoura, tentando retirar de Israel a legitimidade básica de exercer força militar em sua defesa ao rotulá-lo como um “criminoso internacional”.

No plano econômico, onde ambos os lados desfrutaram de períodos de cooperação fértil e intensa, a pressão turca tornou-se agressiva. O rigoroso embargo comercial imposto por Erdogan em maio de 2024, e agravado recentemente, visa causar danos reais à economia israelense, com foco nos setores automotivo e de infraestrutura. Erdogan provou estar disposto a absorver perdas econômicas na Turquia para tornar Israel um pária econômico; a Turquia já não apenas “ameaça”, ela age sistematicamente para garantir que Israel permaneça isolado.

Uma das evoluções mais preocupantes para Israel é o chamado “cerco estratégico” através da reaproximação entre Erdogan e o presidente do Egito, el-Sisi. Após anos de amarga hostilidade ideológica, as duas potências regionais encontram uma linguagem comum diante do que percebem como um comportamento israelense imprevisível. Esta aproximação não nasceu no vácuo, mas é viabilizada por um resfriamento significativo nas relações Israel-Egito.

Durante anos, Israel, Chipre e Grécia construíram uma aliança estratégica multidimensional que incomoda profundamente Erdogan, e que inclusive ganhou expressão institucional no Fórum de Gás do Mediterrâneo Oriental (EMGF), do qual o Egito é um parceiro central. Essa nova coordenação visa desafiar a liderança regional de Israel e ampliar o espaço de influência de Ancara sobre o futuro de Gaza.

Para compreender a complexidade dessas relações, devemos olhar também para o norte, onde a Síria surge como um palco fascinante de “Realpolitik” turco-israelense. Dentro do caos sírio, interesses frios superam a retórica inflamada e existe uma coordenação estratégica silenciosa entre Jerusalém e Ancara. Ambos os países compartilham o interesse supremo de conter a consolidação iraniana na Síria (ainda que por razões distintas). Para viabilizar essa coordenação estratégica, Israel demonstra pragmatismo ao lidar com a sensibilidade de Ancara em relação à questão curda. Este paradoxo, onde Erdogan é o adversário amargo em Gaza, mas o parceiro conveniente na Síria, prova que ele é um ator racional que entende a linguagem da força.

A deterioração das relações com a Turquia não é fruto apenas dos movimentos de Erdogan. Desde outubro de 2023, Israel optou por responder ao líder turco na mesma moeda – retórica dura, insultos públicos e confronto direto. Embora esses passos tenham servido a necessidades políticas internas em Israel, revelaram-se um erro estratégico: a intensificação do tom israelense forneceu a Erdogan o “combustível” necessário para justificar o embargo econômico e a campanha jurídica, enfraquecendo severamente nossa capacidade de gerir a crise através da “diplomacia silenciosa” e reduzindo nossa margem de manobra. Em vez de engajar a Turquia como um fator de moderação frente ao Irã ou ao Hamas, empurramo-la para um canto onde ela não tem nada a perder com um confronto frontal conosco.

As relações Israel-Turquia em 2026 são um quebra-cabeça de contradições: hostilidade aberta na retórica, no comércio e na frente internacional, ao lado de uma parceria forçada na reconstrução de Gaza e coordenação estratégica silenciosa na Síria. Erdogan não é um “mediador honesto” (Honest Broker) – é um jogador interessado que busca a grandeza da Turquia em detrimento do antigo equilíbrio. O sucesso israelense diante do desafio turco exige um retorno à “Realpolitik” sóbria, o que ocorrerá se o governo de Israel compreender que a Turquia é um vizinho permanente e influente que não se pode, nem se deve, ignorar.

Sem justificar de forma alguma sua conduta hostil e a retórica tóxica de Erdogan, precisamos aprender a “desatar o nó” e separar os gritos em Ancara dos interesses comuns no terreno, substituindo as manchetes por planos de trabalho diplomáticos concretos.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons

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