Israel e Turquia: da tensão ao confronto estrutural
Revital PolegO ataque israelense à base aérea militar de Abu al-Duhur, no noroeste da Síria, em meados de agosto, foi um momento em que Israel e Turquia se aproximaram perigosamente de uma fricção militar direta. Segundo relatos divulgados em Israel, o alvo foi atacado para impedir o posicionamento de sistemas e forças turcas na base, medida que criaria um risco duplo: a limitação da liberdade de ação aérea israelense e a possibilidade concreta de um confronto com o Exército de um país-membro da OTAN. Para Ancara, por outro lado, sua presença no norte da Síria não é dirigida contra Israel, mas decorre do temor de uma consolidação de uma autonomia curda em sua fronteira. Embora Ancara e Damasco tenham negado planos para uma presença turca permanente no local, Washington rapidamente avançou na criação de um mecanismo trilateral de desconflito, passo que demonstrou que a tensão não era apenas retórica.
Abu al-Duhur foi o momento em que Jerusalém e Ancara compreenderam que poderiam ultrapassar uma linha que, na realidade, nenhuma das duas deseja cruzar, ou, ao contrário, o momento em que cada uma decidiu testar até onde seria possível se aproximar dela? Poucos dias depois, Israel assinou com a Grécia o acordo “Escudo de Aquiles”, de defesa aérea, no valor de cerca de 3 bilhões de euros. Não se trata de uma resposta direta ao ataque na Síria, mas o momento lhe confere significado: paralelamente às ações preventivas no espaço aéreo sírio, Israel reforça sua profundidade estratégica no Mediterrâneo por meio da aliança cada vez mais estreita com Grécia e Chipre.
A tensão não decorre de uma única frente. Gaza agravou o confronto entre Israel e Turquia, e entre Netanyahu e Erdogan; a Síria o transformou em risco militar; o Mediterrâneo Oriental ampliou-o para uma competição por alianças, energia e infraestrutura; e o Irã, que perdeu sua posição na Síria, deixou um vazio que ambos os países buscam moldar, cada um à sua maneira. Acima de tudo isso estão os Estados Unidos, chamados a administrar a tensão entre dois parceiros importantes sem abandonar seus próprios interesses diante da Rússia, do Irã, do Hamas e do caos sírio.
Até o ataque de 7 de outubro e a guerra em Gaza, Israel e Turquia mantinham uma fórmula instável, mas funcional: retórica agressiva e profundas divergências sobre a questão palestina, ao lado de comércio, turismo, vínculos empresariais e canais diplomáticos que se ampliavam ou se retraíam conforme a intensidade da crise do momento entre os dois países. Mesmo nos picos de tensão, ambos souberam preservar interesses mútuos, que tiveram início com o reconhecimento de Israel pela Turquia, em 1949, e evoluíram para uma estreita cooperação em segurança e um comércio ativo, especialmente durante os anos 1990.
A guerra em Gaza rompeu essa fórmula. Desde 7 de outubro, o confronto em torno de Gaza transformou economia, diplomacia e status regional em arenas diretas de disputa entre Israel e Turquia. Para Erdogan, a guerra lhe proporciona legitimidade junto à opinião pública turca, reforça sua imagem como defensor dos palestinos e lhe permite consolidar a influência da Turquia no mundo muçulmano. A proximidade ideológica do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) com as correntes da Irmandade Muçulmana e com o Hamas explica o porquê, aos olhos de Ancara, o vínculo com o Hamas não é apenas um instrumento tático, mas um ativo político e regional. Para Israel, essa mesma afinidade é uma razão central pela qual a Turquia não pode ser considerada uma mediadora neutra na questão de Gaza.
O embargo total ao comércio com Israel, imposto pela Turquia em maio de 2024, e sua adesão ao processo iniciado pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça evidenciaram essa mudança. Ancara mostrou-se disposta a colocar em risco uma relação comercial que, antes da guerra, movimentava cerca de 6,8 bilhões de dólares por ano, e a pagar um preço diplomático, a fim de transformar o confronto com Israel de retórica em política de governo.
A tensão também se agravou em torno do plano de Trump para Gaza. As relações próximas de Trump com Erdogan conferem à Turquia um papel significativo no esforço americano para promover o plano e influenciar o Hamas, ao lado de Egito e Catar. Israel, por sua vez, busca reduzir o papel de Ancara e se opõe à participação turca ou catariana no mecanismo internacional de segurança planejado para a Faixa de Gaza, devido aos vínculos e canais de influência de ambos os países junto ao Hamas, e também por receio de uma presença turca significativa tanto em Gaza, junto à fronteira sul de Israel, quanto na Síria, junto à sua fronteira norte.
A rivalidade entre Israel e Turquia não é artificial, mas Netanyahu e Erdogan também sabem explorá-la para fins políticos internos. Com vistas às eleições previstas para 2028, Erdogan enfrenta pressão econômica e política, inflação extremamente elevada, desaceleração da economia e a questão da sucessão dentro do AKP. O confronto com Israel lhe permite enfatizar uma liderança firme, o compromisso com a causa palestina e a independência turca. Para Netanyahu, a Turquia se encaixa na narrativa de uma ameaça regional em múltiplas frentes e da necessidade de uma liderança experiente em segurança. Nesse contexto, a campanha do Likud coloca Erdogan lado a lado com os líderes do Irã e do Hezbollah.
O ego também é uma variável estratégica. Trata-se de dois líderes que transformaram o confronto público entre si em parte de suas respectivas marcas políticas. Por isso, é mais fácil para ambos administrar um confronto aberto do que um compromisso público; quanto mais a retórica se intensifica, maior se torna a necessidade de canais secretos que permitam coordenação sem que isso pareça uma concessão.
Essa dinâmica não cria as divergências, mas as endurece e amplia seu impacto de uma arena para outra: na Síria e em Gaza, ela se expressa em uma disputa direta por presença e influência; no Mediterrâneo Oriental, a cooperação entre Israel, Grécia e Chipre nos campos da energia, dos cabos submarinos e da segurança é percebida em Ancara como uma ameaça direta à Doutrina da Pátria Azul (Mavi Vatan), que busca consolidar a influência marítima da Turquia. O acordo “Escudo de Aquiles” confere a essa aliança uma dimensão militar mais concreta e reforça em Ancara a percepção de que um arranjo regional concorrente está se formando diante dela.
Israel e Turquia não estão a caminho de uma reconciliação, mas, ao mesmo tempo, esforçam-se para não ultrapassar o limiar de um confronto direto. A relação está submetida a uma matriz rígida de impulsos e freios: os impulsos para a escalada são políticos e ideológicos, mas os freios são estruturais. Ambos têm interesse em manter um nível de fricção elevado, porém limitado, sem deslizar para um confronto militar que seria caro, imprevisível e difícil de conter.
A Turquia tem freios claros: dependência dos mercados e investimentos europeus, sua condição de membro da OTAN, necessidade de preservar os vínculos com os Estados Unidos e uma economia vulnerável. Israel, por sua vez, busca manter sua liberdade de ação na Síria, limitar a influência da Turquia em Gaza e junto ao Hamas e consolidar sua posição no Mediterrâneo Oriental. Apesar da retórica dura do ministro da Defesa, Israel Katz, e do desejo de Israel de reduzir a influência de Ancara, o país não tem interesse em um confronto militar direto com a Turquia.
Por isso, ao lado do confronto público, também operam canais de contenção. Os Estados Unidos promovem um mecanismo de desconflito entre Israel, Turquia e Síria, e o Azerbaijão atua, em escala mais modesta, para preservar um canal discreto entre Jerusalém e Ancara. Seu objetivo não é a reconciliação, mas evitar um erro de cálculo capaz de transformar uma rivalidade regional em confronto direto.
Apesar do confronto atual, ambos os países têm interesse em encontrar áreas de convergência e impedir uma deterioração. É razoável avaliar que mudanças de liderança em Jerusalém e, mais adiante, também em Ancara, se e quando ocorrerem, poderão alterar o estilo da relação, suavizar o tom e permitir um diálogo mais pragmático, inicialmente, provavelmente, por canais discretos. Por si só, essas mudanças não resolverão as divergências substantivas na Síria, em Gaza e no Mediterrâneo Oriental, mas poderão permitir que sejam administradas de maneira mais estável e cautelosa. Uma gestão contida da rivalidade servirá não apenas aos dois países, mas também à estabilidade regional como um todo.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Foto: Pixabay
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