Israel e Turquia: da tensão ao confronto estrutural
08 set 26

Israel e Turquia: da tensão ao confronto estrutural

Revital Poleg

O ataque israelense à base aérea militar de Abu al-Duhur, no noroeste da Síria, em meados de agosto, foi um momento em que Israel e Turquia se aproximaram perigosamente de uma fricção militar direta. Segundo relatos divulgados em Israel, o alvo foi atacado para impedir o posicionamento de sistemas e forças turcas na base, medida que criaria um risco duplo: a limitação da liberdade de ação aérea israelense e a possibilidade concreta de um confronto com o Exército de um país-membro da OTAN. Para Ancara, por outro lado, sua presença no norte da Síria não é dirigida contra Israel, mas decorre do temor de uma consolidação de uma autonomia curda em sua fronteira. Embora Ancara e Damasco tenham negado planos para uma presença turca permanente no local, Washington rapidamente avançou na criação de um mecanismo trilateral de desconflito, passo que demonstrou que a tensão não era apenas retórica.

Abu al-Duhur foi o momento em que Jerusalém e Ancara compreenderam que poderiam ultrapassar uma linha que, na realidade, nenhuma das duas deseja cruzar, ou, ao contrário, o momento em que cada uma decidiu testar até onde seria possível se aproximar dela? Poucos dias depois, Israel assinou com a Grécia o acordo “Escudo de Aquiles”, de defesa aérea, no valor de cerca de 3 bilhões de euros. Não se trata de uma resposta direta ao ataque na Síria, mas o momento lhe confere significado: paralelamente às ações preventivas no espaço aéreo sírio, Israel reforça sua profundidade estratégica no Mediterrâneo por meio da aliança cada vez mais estreita com Grécia e Chipre.

A tensão não decorre de uma única frente. Gaza agravou o confronto entre Israel e Turquia, e entre Netanyahu e Erdogan; a Síria o transformou em risco militar; o Mediterrâneo Oriental ampliou-o para uma competição por alianças, energia e infraestrutura; e o Irã, que perdeu sua posição na Síria, deixou um vazio que ambos os países buscam moldar, cada um à sua maneira. Acima de tudo isso estão os Estados Unidos, chamados a administrar a tensão entre dois parceiros importantes sem abandonar seus próprios interesses diante da Rússia, do Irã, do Hamas e do caos sírio.

Até o ataque de 7 de outubro e a guerra em Gaza, Israel e Turquia mantinham uma fórmula instável, mas funcional: retórica agressiva e profundas divergências sobre a questão palestina, ao lado de comércio, turismo, vínculos empresariais e canais diplomáticos que se ampliavam ou se retraíam conforme a intensidade da crise do momento entre os dois países. Mesmo nos picos de tensão, ambos souberam preservar interesses mútuos, que tiveram início com o reconhecimento de Israel pela Turquia, em 1949, e evoluíram para uma estreita cooperação em segurança e um comércio ativo, especialmente durante os anos 1990.

A guerra em Gaza rompeu essa fórmula. Desde 7 de outubro, o confronto em torno de Gaza transformou economia, diplomacia e status regional em arenas diretas de disputa entre Israel e Turquia. Para Erdogan, a guerra lhe proporciona legitimidade junto à opinião pública turca, reforça sua imagem como defensor dos palestinos e lhe permite consolidar a influência da Turquia no mundo muçulmano. A proximidade ideológica do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) com as correntes da Irmandade Muçulmana e com o Hamas explica o porquê, aos olhos de Ancara, o vínculo com o Hamas não é apenas um instrumento tático, mas um ativo político e regional. Para Israel, essa mesma afinidade é uma razão central pela qual a Turquia não pode ser considerada uma mediadora neutra na questão de Gaza.

O embargo total ao comércio com Israel, imposto pela Turquia em maio de 2024, e sua adesão ao processo iniciado pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça evidenciaram essa mudança. Ancara mostrou-se disposta a colocar em risco uma relação comercial que, antes da guerra, movimentava cerca de 6,8 bilhões de dólares por ano, e a pagar um preço diplomático, a fim de transformar o confronto com Israel de retórica em política de governo.

A tensão também se agravou em torno do plano de Trump para Gaza. As relações próximas de Trump com Erdogan conferem à Turquia um papel significativo no esforço americano para promover o plano e influenciar o Hamas, ao lado de Egito e Catar. Israel, por sua vez, busca reduzir o papel de Ancara e se opõe à participação turca ou catariana no mecanismo internacional de segurança planejado para a Faixa de Gaza, devido aos vínculos e canais de influência de ambos os países junto ao Hamas, e também por receio de uma presença turca significativa tanto em Gaza, junto à fronteira sul de Israel, quanto na Síria, junto à sua fronteira norte.

A rivalidade entre Israel e Turquia não é artificial, mas Netanyahu e Erdogan também sabem explorá-la para fins políticos internos. Com vistas às eleições previstas para 2028, Erdogan enfrenta pressão econômica e política, inflação extremamente elevada, desaceleração da economia e a questão da sucessão dentro do AKP. O confronto com Israel lhe permite enfatizar uma liderança firme, o compromisso com a causa palestina e a independência turca. Para Netanyahu, a Turquia se encaixa na narrativa de uma ameaça regional em múltiplas frentes e da necessidade de uma liderança experiente em segurança. Nesse contexto, a campanha do Likud coloca Erdogan lado a lado com os líderes do Irã e do Hezbollah.

O ego também é uma variável estratégica. Trata-se de dois líderes que transformaram o confronto público entre si em parte de suas respectivas marcas políticas. Por isso, é mais fácil para ambos administrar um confronto aberto do que um compromisso público; quanto mais a retórica se intensifica, maior se torna a necessidade de canais secretos que permitam coordenação sem que isso pareça uma concessão.

Essa dinâmica não cria as divergências, mas as endurece e amplia seu impacto de uma arena para outra: na Síria e em Gaza, ela se expressa em uma disputa direta por presença e influência; no Mediterrâneo Oriental, a cooperação entre Israel, Grécia e Chipre nos campos da energia, dos cabos submarinos e da segurança é percebida em Ancara como uma ameaça direta à Doutrina da Pátria Azul (Mavi Vatan), que busca consolidar a influência marítima da Turquia. O acordo “Escudo de Aquiles” confere a essa aliança uma dimensão militar mais concreta e reforça em Ancara a percepção de que um arranjo regional concorrente está se formando diante dela.

Israel e Turquia não estão a caminho de uma reconciliação, mas, ao mesmo tempo, esforçam-se para não ultrapassar o limiar de um confronto direto. A relação está submetida a uma matriz rígida de impulsos e freios: os impulsos para a escalada são políticos e ideológicos, mas os freios são estruturais. Ambos têm interesse em manter um nível de fricção elevado, porém limitado, sem deslizar para um confronto militar que seria caro, imprevisível e difícil de conter.

A Turquia tem freios claros: dependência dos mercados e investimentos europeus, sua condição de membro da OTAN, necessidade de preservar os vínculos com os Estados Unidos e uma economia vulnerável. Israel, por sua vez, busca manter sua liberdade de ação na Síria, limitar a influência da Turquia em Gaza e junto ao Hamas e consolidar sua posição no Mediterrâneo Oriental. Apesar da retórica dura do ministro da Defesa, Israel Katz, e do desejo de Israel de reduzir a influência de Ancara, o país não tem interesse em um confronto militar direto com a Turquia.

Por isso, ao lado do confronto público, também operam canais de contenção. Os Estados Unidos promovem um mecanismo de desconflito entre Israel, Turquia e Síria, e o Azerbaijão atua, em escala mais modesta, para preservar um canal discreto entre Jerusalém e Ancara. Seu objetivo não é a reconciliação, mas evitar um erro de cálculo capaz de transformar uma rivalidade regional em confronto direto.

Apesar do confronto atual, ambos os países têm interesse em encontrar áreas de convergência e impedir uma deterioração. É razoável avaliar que mudanças de liderança em Jerusalém e, mais adiante, também em Ancara, se e quando ocorrerem, poderão alterar o estilo da relação, suavizar o tom e permitir um diálogo mais pragmático, inicialmente, provavelmente, por canais discretos. Por si só, essas mudanças não resolverão as divergências substantivas na Síria, em Gaza e no Mediterrâneo Oriental, mas poderão permitir que sejam administradas de maneira mais estável e cautelosa. Uma gestão contida da rivalidade servirá não apenas aos dois países, mas também à estabilidade regional como um todo.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

 

Foto: Pixabay

Artigos Relacionados

Morre Matti Caspi, o “embaixador” da música brasileira em Israel
Morre Matti Caspi, o “embaixador” da música brasileira em Israel

Calendar icon 8 de fevereiro de 2026

Neste domingo, 8 de fevereiro de 2026, Israel perdeu Matti Caspi, um dos mais queridos ícones musicais do país. O músico, que faleceu aos 76 anos, é parte indelével da memória emocional coletiva dos israelenses. Suas canções, em geral baladas profundas, são parte da trilha sonora de Israel desde os anos 1970. Sua voz notável […]

Arrow right icon Leia mais
8 de Outubro: Pessach de um ano e meio
8 de Outubro: Pessach de um ano e meio

Calendar icon 7 de abril de 2025

Eduardo Wurzmann Fui almoçar com uma amiga querida há duas semanas. Não nos víamos há tempos, mas a conexão verdadeira permite que as perguntas importantes sejam feitas de início. E ela me perguntou como eu estava desde o fatídico 7 de Outubro. Fiquei perplexo. Pela primeira vez me dei conta que já se passaram 18 […]

Arrow right icon Leia mais
Mesmo se conseguir evitar eleições, Netanyahu já perdeu
Mesmo se conseguir evitar eleições, Netanyahu já perdeu

Calendar icon 10 de junho de 2025

Daniela Kresch Tel Aviv – O premiê Benjamin Netanyahu corre contra o tempo para impedir que os partidos ultraortodoxos deixem sua coalizão, fato que desmantelaria o governo. Talvez consiga. Mas, independentemente disso, já perdeu algo muito importante. Não o poder imediato; ele pode se manter no cargo até março de 2026, quando quase todos esperam […]

Arrow right icon Leia mais