Um mensch carioca no seriado sobre o Césio-137
30 mar 26

Um mensch carioca no seriado sobre o Césio-137

Daniela Kresch

TEL AVIV – Um personagem do novo seriado brasileiro da Netflix, “Emergência Radioativa”, criada por Gustavo Lipsztein, sobre o acidente com o Césio-137 em Goiânia, em 1987, chama a atenção por personificar o que significa ser “mensch”. É uma pessoa íntegra, honrada, digna, empática e confiável, com alto senso de justiça, que demonstra cordialidade e generosidade sem esperar reciprocidade. E que, acima de tudo, não foge da responsabilidade.

Interpretado pelo ator Paulo Gorgulho, ele se chama Benny Davi Orenstein, experiente físico da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) que é enviado do Rio de Janeiro a Goiânia para investigar a contaminação e ajudar a conter a disseminação do material radioativo. Fica claro que ele é judeu. Em certo momento, ele aparece de kipá (solidéu) na cabeça, entoando “Shemá Israel” e jejuando no Yom Kippur.

O Dr. Orenstein se torna uma figura-chave na contenção da crise com o Césio-137, atuando como eficiência e empatia em relação às vítimas. Mesmo assim, chega a ser apontado como um dos culpados pelo envenenamento radioativo que matou diretamente 4 pessoas – o que, claramente, não é o caso. Ele assume a responsabilidade, mas, justamente, acaba não sendo indiciado.

Assim como outros personagens da série, o Dr. Orenstein é baseado numa pessoa verdadeira: o físico nuclear José de Júlio Rozental, que, como no seriado, desembarcou em Goiânia algumas horas depois de saber o que havia acontecido. Rozental teve um papel importantíssimo no estabelecimento de protocolos para conter a propagação do Césio-137. Ele ajudou a criar o depósito de armazenamento dos rejeitos radioativos decorrentes do acidente.

Fora isso, ele ajudou a tranquilizar a população. Ele conversava com as famílias, falava nas rádios e TV. Sua voz calma e simpática ajudava os moradores da cidade. Em reconhecimento, ele recebeu o título de cidadão goianiense.

A trajetória de José de Júlio Rozental foi parecida com a de muitos judeus que chegaram ao Brasil no século XX. Seus país eram oriundos da Romênia e chegaram a São Paulo no começo do século, onde José (ou Zico, como era apelidado), o caçula de três filhos, nasceu em 1933. Sem muitos meios, ele e os irmãos trabalharam como engraxates na infância. Quando a família se mudou para o Rio de Janeiro, ele foi trabalhar como “boy” num escritório de advocacia. Mais tarde, ele conseguiu bolsa de estudos para se formar físico nuclear, se casou com Raquel e teve 3 filhos: Júlio, Rosa e Renata.

Como profissional, ele participou da construção do reator Argonauta – marco da engenharia nuclear no Brasil, do qual 93% dos componentes eram nacionais. Na década de 1970, passou a chefiar o Departamento de Instalações Nucleares (DIN) da CNEN, em Botafogo, cargo que ocupou por 17 anos.

Sua colega, a física Silvia Maria Velasques de Oliveira, pesquisadora da CNEN, produziu um documentário sobre a vida de Rozental com o apoio da FAPERJ. Em reportagem da faculdade, ela disse: “É muito importante relembrar a carreira desse profissional, que foi imprescindível para a evolução da medicina nuclear no Brasil. Todos os exames realizados com material radioativo que utilizamos hoje e a segurança com que podemos empregar essas técnicas, devemos, em grande parte, ao trabalho de Rozental”.

O documentário também mostra a atuação de Rozental como um dos coordenadores das ações de recuperação de Goiânia após o acidente com uma fonte de Césio-137. Segundo Ivan Salati, diretor de Radioproteção e Segurança Nuclear da CNEN, “Rozental manteve relação estreita com as vítimas do acidente e a população, para melhorar-lhes a autoestima porque o acidente marcou muito. Entrava de casa em casa e comia da mesma comida para mostrar que não estava contaminada”.

Rozental também se destacava na comunidade judaica carioca. Ele presidiu o Clube Hebraica, em Laranjeiras, e era muito querido entre os amigos por sua humildade e simpatia. Em 1993, ele imigrou para Israel para estar próximo de seus 3 filhos, que já tinham feito aliá. De lá, mesmo aposentado, continuou a ser uma referência em assuntos nucleares, servindo como consultor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e do Ministério do Meio Ambiente israelense.

Antes de partir, ele escreveu uma carta de despedida ao povo de Goiânia que foi divulgada nos jornais locais:

“À Goiânia.

Saio. Não deixo Goiânia, jamais deixaria. Apenas saio. Ficam aqui meus companheiros de luta, meus amigos. Certamente já não dependem mais de mim. não precisam mais de mim, passei-lhes o que pude, ensinei-lhes o que sabia e sei que me superarão.

Goiânia é parte de mim, deixarei aqui meu amor e levarei daqui a esperança, lição que seu povo me ensinou.

Goiânia sobreviveu ao acidente do césio, apesar de tudo, de todas as dificuldades.

Parto agora para outras terras, ao encontro dos meus filhos, que já lá estão. Volto à terra dos meus antepassados. Vou em busca de novos sonhos agora mais experiente. Levarei a todos, levarei o Brasil, terra onde nasci.

Levarei de Goiânia em minha memória, memórias de heróis, de bravos, de homens perseverantes, do povo mais meigo que convivi.

Amo essa terra e suas flores. Que me perdoem o egoísmo, vou levá-las comigo

José de Júlio Rozental.”

 

Quando Rozental faleceu, aos 77, em 2010, o Jornal do Brasil escreveu um obituário elogioso, destacando, com razão, que ele foi “um dos físicos mais importantes da história da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)” e “referência na área de segurança nuclear”: “Em sua trajetória profissional, Rozental se destacou em nível internacional. Durante 16 anos, foi chefe da Coordenação de Instalações Radiativas da Cnen, tendo sido um dos responsáveis pela elaboração das normas de licenciamento e controle de fontes radioativas do país”.

Agora uma observação pessoal. Conheci o José de Júlio Rozental e sua família. Fui algumas vezes à casa dos Rozental no Flamengo, na década de 1980, uma casa de classe média aconchegante e bacana. Me lembro de saber, à época do caso do Césio-137, que ele teve alguma coisa a ver com tudo aquilo. Mais, aos 18 anos, eu não tinha ideia do tamanho da pessoa que ele era, da grandiosidade desse mensch que era tão querido na comunidade judaica carioca.

Seu filho mais velho, o Julinho – que herdou do pai o carisma e a inteligência –, faleceu prematuramente no final do ano passado, aos 59 anos. Uma dor tremenda para a família – e pessoalmente, também para mim, já que ele foi figura inesquecível da minha infância e adolescência no movimento juvenil Hashomer Hatzair. Mas o Julinho não marcou só a mim. Seu enterro, no Kibutz Gaash, reuniu dezenas de pessoas e foi transmitido ao vivo para seus amigos do Shomer no Brasil.

Assistir o Paulo Gorgulho no seriado da Netflix foi entender a grandeza do José de Júlio Rozental e, ao mesmo tempo, lembrar do filho, o Julinho, tão mensch como ele. Tudo se misturou na minha cabeça. Mas, acima de tudo, foi lindo ver como a produção da série retratou um personagem judeu de forma tão positiva e sem estereótipos. Isso num momento em que o antissemitismo recrudesce no Brasil. Muito emocionante.

Abaixo, dois links para documentários sobre José de Júlio Rozental:

Documentário sobre o pesquisador José Júlio Rozental – 2002

 

Homenagem a José de Julio Rozental

 

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