A terra é oca, mas a culpa é sempre de Israel
Karl Schurster
Póss doutor em História pela Universidade Livre de Berlim. Pesquisador ddo CNPq e assessor do Instituto Brasil Israel.
Poucos romances contemporâneos exploram com tanta precisão a lógica do pensamento conspiracionista quanto La luna antes del aterrizaje, de Clemens J. Setz. Publicado originalmente em alemão sob o título Mond vor der Landung (2023), o romance reconstrói, a partir de extensa pesquisa documental, a trajetória de Peter Bender (1893–1944), escritor alemão que se tornou um dos mais conhecidos defensores da teoria da Terra Oca nas primeiras décadas do século XX. Setz não reduz seu protagonista a uma caricatura do irracional. Acompanha, com atenção quase microscópica, o modo como uma visão de mundo alternativa se constrói, se organiza e se sustenta. O interesse do romance não está em discutir se a Terra é ou não oca. Está em compreender como certas pessoas passam a habitar universos interpretativos nos quais qualquer evidência contrária deixa de funcionar como refutação e passa a operar como confirmação da própria teoria.
Nesse sentido, a obra excede o interesse literário e oferece uma metáfora poderosa para compreender um fenômeno contemporâneo bem mais amplo. O conspiracionismo não se resume à crença ocasional em uma teoria conspiratória específica. Configura uma forma particular de interpretar a realidade, fundada na convicção de que os acontecimentos sociais, políticos e históricos são conduzidos por agentes ocultos que atuam deliberadamente para enganar a população. Nessa lógica, o acaso tende a desaparecer, a complexidade se reduz à ação intencional de pequenos grupos e a ausência de provas não enfraquece a hipótese conspiratória. Com frequência, torna-se mais uma evidência da eficácia da conspiração em ocultar seus próprios rastros.
Mais que um conjunto de narrativas isoladas, o conspiracionismo constitui um estilo cognitivo e interpretativo. Organiza a experiência por meio de uma desconfiança sistemática em relação às instituições, ao conhecimento especializado e às versões públicas dos acontecimentos, substituindo-os por sistemas explicativos autorreferenciais. Como observa o romance de Setz, o conspiracionista não se percebe como alguém que rejeita a verdade. Ele acredita ocupar uma posição privilegiada de acesso àquilo que os demais são incapazes, ou impedidos, de enxergar. É precisamente essa inversão que confere ao conspiracionismo parte de sua força social e de sua capacidade de adaptação a contextos históricos distintos.
A partir dessa perspectiva, o conspiracionismo não pode ser compreendido como uma coleção de teorias marginais, mas como uma matriz interpretativa que oferece explicações totalizantes para fenômenos complexos, estabelece fronteiras rígidas entre aqueles que “conhecem a verdade” e aqueles que permanecem “enganados” e transforma a suspeita em princípio permanente de leitura da realidade. Essa definição permite entender por que teorias conspiratórias distintas, ainda que tratem de temas diversos, compartilham estruturas narrativas, mecanismos argumentativos e formas semelhantes de produção de sentido.
A teoria da Terra Oca como modelo de funcionamento
A teoria defendida por Peter Bender, denominada Hohlwelttheorie, sustenta que a Terra não é um corpo sólido com superfície convexa, e sim uma esfera oca habitada por dentro. Segundo essa hipótese, os seres humanos vivem na face interna da crosta terrestre, o sol e as estrelas correspondem a um núcleo luminoso central ou a reflexos ópticos, e a curvatura observável do horizonte se explica pela concavidade do espaço habitado, não pela convexidade de um planeta visto de fora. Bender chegou a propor expedições para comprovar sua teoria, incluindo o envio de foguetes ao Báltico com o objetivo de registrar a suposta curvatura inversa do céu.
O aspecto relevante não é a hipótese em si, já amplamente refutada pela física e pela astronomia. É o mecanismo interpretativo que a sustenta. Qualquer observação astronômica compatível com o modelo convencional, o comportamento da gravidade, os eclipses, as fotografias da Terra vista do espaço, era reinterpretada por Bender e seus seguidores como manipulação ou erro de quem produziu a observação. O modelo funcionava como sistema fechado. Absorvia contradições, convertia refutações em confirmações e mantinha coerência interna independentemente do que o mundo exterior apresentasse como evidência.
Esse mesmo mecanismo, isolado de seu conteúdo específico sobre a forma do planeta, reaparece de modo praticamente idêntico na estrutura do antissemitismo contemporâneo.
Antissemitismo como matriz conspiracionista
O antissemitismo oferece o caso paradigmático dessa matriz interpretativa. Desde os Protocolos dos Sábios de Sião, falsificação forjada no início do século XX, a tradição antissemita moderna organiza-se em torno de uma hipótese fixa de um grupo oculto, identificado com os judeus, controla governos, economias e processos históricos por meio de mecanismos invisíveis à maioria da população. Essa hipótese cumpre exatamente as funções que caracterizam o pensamento conspiracionista descrito anteriormente. Reduz fenômenos complexos, migrações, crises econômicas, conflitos armados, a uma causa única e intencional. Estabelece fronteira rígida entre os iniciados, capazes de enxergar o funcionamento real dos acontecimentos, e os enganados, que aceitam as explicações oficiais. Transforma a ausência de provas em confirmação adicional, já que o próprio ocultamento das provas passa a integrar o roteiro da conspiração.
A diferença entre o antissemitismo e outras formas de conspiracionismo está na antiguidade e na plasticidade de sua estrutura narrativa. Teorias conspiratórias específicas, como as que envolvem a Terra Oca, tendem a permanecer circunscritas a comunidades restritas. O antissemitismo, ao contrário, funciona como matriz genérica, disponível para explicar praticamente qualquer evento contemporâneo, independentemente de sua natureza real. Essa disponibilidade permite observar, com regularidade preocupante, o mesmo padrão interpretativo acionado diante de crises inteiramente distintas entre si, sem relação histórica ou geográfica direta com a questão judaica.
A crise de Ceuta como caso de estudo
Entre julho e agosto de 2026, a entrada em massa de migrantes marroquinos na cidade espanhola de Ceuta, fenômeno de natureza migratória e diplomática, converteu-se, em segmentos expressivos das redes sociais, em prova de um complô coordenado entre Israel, Estados Unidos e Marrocos contra a Espanha. O episódio oferece um exemplo particularmente nítido de como a lógica antissemita se acopla a um evento real e ressignifica cada elemento disponível como indício de intencionalidade oculta.
Três movimentos se destacam nesse processo. O primeiro é a reativação de tropos antissemitas clássicos diante de um episódio sem relação direta com a história judaica. Comentários que associaram a postagem do diplomata israelense Danny Danon, em que ele acusava a Espanha de hipocrisia por manter enclaves coloniais na África, à expulsão dos judeus do território espanhol em 1492 reencenaram uma narrativa muito anterior ao próprio conflito em Ceuta. Publicações que classificaram o Estado de Israel como “ocupação nazi-sionista” seguiram o mesmo padrão. O acontecimento presente funcionou como gatilho, a explicação já estava disponível antes dele.
O segundo movimento é a transformação de declarações isoladas e desconectadas entre si em evidência de um plano único. Uma publicação de Yair Netanyahu de 2019, na qual ele ironizava a hipocrisia espanhola ao criticar Israel enquanto mantinha enclaves em Ceuta e Melilla, foi resgatada das redes sociais e recirculada como prova de um “plano previamente planejado”. A felicitação oficial do Ministério das Relações Exteriores de Israel ao Marrocos pelo Dia do Trono, publicada dias antes da crise migratória se intensificar, somou-se a essa leitura como novo elo da suposta conspiração. A retratação pública do próprio Yair Netanyahu, que reafirmou não haver relação entre sua publicação antiga e os episódios recentes, não interrompeu a circulação da narrativa. Esse ponto confirma o funcionamento estrutural já descrito: a correção factual não desarma a hipótese conspiratória, torna-se apenas mais um dado a ser reinterpretado ou ignorado.
O terceiro movimento é a construção de equivalências simbólicas capazes de sustentar a acusação mesmo sem prova documental. A expressão “Marrocos é a Israel da África”, combinada à comparação visual entre as bandeiras de ambos os países, colocadas lado a lado com suas estrelas, criou um vínculo interpretativo que dispensa qualquer verificação empírica. A ideia de uma “Grande Marrocos”, que ligaria Ceuta ao Saara Ocidental, foi apresentada como espelho do projeto de expansão israelense sobre o Levante, reforçando a percepção de que ambos os países operariam segundo a mesma lógica colonial. A conversa pública em torno do episódio não se organizou em torno de informação. Organizou-se em torno de indignação, suspeita e denúncia.
Da anomalia ao padrão interpretativo
O crescimento repentino das publicações sobre o tema, no fim de julho de 2026, não decorreu de uma única declaração isolada. Resultou da convergência entre um acontecimento factual, a crise migratória em curso, e um repertório interpretativo pré-existente, sempre disponível para ser acionado. O antissemitismo contemporâneo não depende, na maioria dos casos observados, da criação de narrativas inteiramente novas. Depende da capacidade de inserir qualquer evento atual dentro de uma estrutura explicativa já consolidada, na qual Israel, e por extensão os judeus, ocupam permanentemente o lugar do agente oculto.
Compreender esse mecanismo tem consequência direta para a educação e para o combate ao antissemitismo. Não basta desmentir cada alegação específica, a expulsão de 1492, o tweet de 2019, a felicitação diplomática, isoladamente. É necessário expor a estrutura que permite a qualquer conteúdo, verdadeiro ou falso, recente ou antigo, ser absorvido pela mesma matriz interpretativa. O episódio de Ceuta não represente apenas uma crise diplomática entre Espanha e Marrocos. Configura, em tempo real, o processo pelo qual uma forma de pensamento antiga se atualiza a cada novo acontecimento geopolítico, encontrando sempre um evento disponível para confirmar aquilo que já pretendia provar antes mesmo de ele acontecer.
Indicação de leitura
SETZ, Clemens J. Las lunas antes del aterrizaje. Traducción de Virginia Maza. Barcelona: H&O Editorial, 2025.
Foto: WikimediaCommons
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