Engenharia do mapa eleitoral: como a política na Cisjordânia se tornou uma tática eleitoral calculada
Revital PolegÀs vésperas de eleições, sistemas políticos costumam convergir para arenas conhecidas: confrontos acalorados nos estúdios de televisão, campanhas direcionadas nas redes sociais e promessas econômicas de grande impacto. Na Israel de 2026, porém, uma das arenas mais significativas em que a campanha eleitoral está sendo planejada e conduzida não se encontra nos comitês de propaganda, mas no terreno da Cisjordânia. Ao lado de temas candentes, como o conflito em Gaza ou a crescente tensão com a Síria e a Turquia, a política nos territórios tornou-se uma arena central na qual cada passo é diretamente condicionado pelo cálculo em torno do dia da votação.
Os anúncios sobre o avanço dos planos de construção na área E1 – aquela faixa de terra estratégica que conecta Jerusalém a Ma’ale Adumim – juntamente com as discretas mudanças institucionais na Administração Civil, já não pertencem apenas ao debate sobre planejamento territorial ou segurança.
Trata-se da transferência de competências executivas, civis e jurídicas nos territórios das mãos do comandante militar para uma instância política civil, uma medida conduzida com vigor pelo ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, em sua função no Ministério da Defesa responsável pelos assuntos civis na Cisjordânia, e que conta com a anuência tácita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Tendo a campanha eleitoral como pano de fundo, trata-se de um mecanismo eleitoral sofisticado e calculado para promover uma engenharia da agenda pública, atar as mãos do próximo governo e impor uma armadilha estratégica aos partidos de oposição.
A escolha do momento atual não é casual. O encerramento das licitações para construção em E1 foi marcado precisamente para 19 de outubro de 2026, apenas dez dias antes do dia da eleição. Colocar a opinião pública e o sistema político diante de uma medida tão dramática permite ao governo deslocar o debate público de questões civis complexas, como a igualdade no fardo do serviço militar, o custo de vida, as falhas no sistema educacional e o funcionamento dos serviços públicos como um todo, para um dilema dicotômico e rígido: você é a favor da segurança de Jerusalém e da expansão dos assentamentos, ou a favor da capitulação à pressão internacional e da criação de um Estado palestino?
Dessa forma, o atual governo obtém uma dupla vantagem política. De um lado, aumenta sua capacidade de manter coesa a sua base da direita ideológica, demonstrando “capacidade de execução” e contendo a transferência de apoio eleitoral para o flanco da extrema-direita, representado pelo partido de Itamar Ben-Gvir e por grupos radicais no terreno. De outro, monta uma armadilha calculada para os partidos de centro e de oposição que pretendem substituí-lo: caso se oponham à construção em E1, serão imediatamente rotulados como partidos que “abrem mão de Jerusalém” e se curvam a imposições externas; se a apoiarem, perderão o que lhes resta de diferenciação no campo político-diplomático e colocarão em risco suas relações institucionais com Washington e as capitais europeias, com vistas ao “dia seguinte”.
Para além do ganho eleitoral imediato, o governo Netanyahu aciona aqui um mecanismo calculado de criação de “fatos consumados” no terreno. A transferência das competências de planejamento para o escalão político-civil condensa em poucos meses processos que antes levavam anos. Contratos, aprovações urbanísticas e compromissos orçamentários definidos às vésperas da eleição tornam o cancelamento do projeto caro, juridicamente complexo e politicamente quase insustentável para qualquer coalizão futura. A mensagem transmitida ao sistema político é inequívoca: mesmo que haja alternância de poder, a política territorial nos territórios já estará definida e ancorada na realidade.
As consequências dessa tática, contudo, não se encerram no ato de votar. Do ponto de vista jurídico e institucional, não é possível separar as normas de exercício do poder aplicadas além da Linha Verde do caráter democrático de Israel em seu próprio território. Quando os mecanismos de aplicação da lei operam de forma seletiva, quando o corpo técnico-jurídico é subordinado a considerações ideológicas e quando poderes soberanos são transferidos a órgãos políticos que promovem uma anexação de fato sem um debate constitucional transparente, a cultura de obediência à lei e os equilíbrios democráticos se desgastam dentro do próprio Estado.
Não é possível sustentar uma cultura de Estado de Direito em Israel e uma cultura contraditória na Cisjordânia. O processo em curso não é apenas uma mudança de fronteiras, mas uma medida deliberada destinada a produzir uma transformação profunda na cultura governamental e jurídica de Israel.
Na arena internacional, essa tática política interna se depara com um obstáculo persistente imposto pela realidade. Uma análise geográfica mostra que a construção em E1 secciona a Cisjordânia em duas unidades separadas, norte e sul, e desconecta Jerusalém Oriental de seu entorno palestino. Para a comunidade internacional, isso representa um dano severo à continuidade territorial e às perspectivas de concretização da solução de dois Estados.
Se no passado as capitais ocidentais se limitavam a declarações de condenação pouco contundentes, um monitoramento recente, realizado pela Dra. Maya Sion-Tzidkiyahu, do Mitvim – o Instituto Israelense de Políticas Externas Regionais –, aponta agora para uma mudança dramática de tendência: a União Europeia e países-chave do Ocidente estão passando das declarações para medidas concretas e sanções direcionadas.
Segundo os resultados do monitoramento, o número de referências oficiais na Europa à imposição de sanções e à adoção de medidas jurídicas e econômicas contra empresas e empreiteiros envolvidos na construção nos territórios aumentou quase sete vezes em poucos meses, de apenas quatro menções no primeiro trimestre de 2026 para 27 no segundo trimestre. Paralelamente, a ruptura da continuidade territorial palestina põe em risco a perspectiva de normalização regional e a integração de Israel no Oriente Médio, objetivo que nem mesmo os países árabes moderados podem promover quando se bloqueia a possibilidade de um horizonte político.
O uso da política territorial para criar fatos no terreno e conduzir uma campanha eleitoral é uma iniciativa particularmente eficaz sob uma perspectiva política estreita. Permite à coalizão controlar a agenda, encurralar a oposição e tentar moldar o futuro do país antes mesmo de os votos serem contados.
Contudo, é precisamente aqui que se revela o paradoxo estratégico mais profundo: embora quanto mais essa medida consiga inviabilizar a ideia de uma divisão física do território, ela não faça desaparecer os milhões de palestinos que vivem na Cisjordânia. Em última análise, o ganho eleitoral de curto prazo acelera o encaminhamento de Israel para uma realidade de um único Estado entre o mar e o rio Jordão – uma realidade que ameaça diretamente sua identidade como Estado judeu e democrático.
A urgência avassaladora de estabelecer fatos no terreno não decorre de confiança na vitória, mas de uma ansiedade concreta diante da possibilidade de perda do poder. Trata-se de uma manobra política preventiva, destinada a engessar o Estado e deixar terra arrasada para qualquer coalizão futura.
O teste da oposição nestas eleições não é apenas saber se conseguirá substituir o governo, mas se será capaz de impedir que o governo atual defina de antemão os limites do possível para a administração que vier a sucedê-lo.
Imagem: WikimediaCommons
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Artigos Relacionados
A ilegitimidade do Estado de Israel: uma falácia que perdura por décadas nos debates da questão israelo-palestina
23 de novembro de 2023
Raphael Fernandes Vieira São muitos os que propagam o argumento de que Israel seria um Estado ilegítimo, fictício ou ilegal. Para entender melhor a problemática dessa argumentação, não bastam os conceitos básicos da grande área da Ciência Política, que ditam o que são Estado, povo, nação, território, identidade nacional e nacionalismo. É preciso que estes […]
Harry Potter e a narrativa anti-Israel nos campi dos EUA
6 de maio de 2024
Daniela Kresch TEL AVIV – Lembrei de um caso que aconteceu na minha vida pessoal enquanto assistia, assustada e impressionada, alguns vídeos sobre as manifestações anti-Israel dos estudantes nas universidades americanas, seus gritos, cartazes e violência. Vou explicar meu ponto em breve, peço paciência aos leitores. Obrigada. Aí vai: Minha filha adora sagas distópicas adolescentes, […]
Sessão de verão na Knesset: Testando os limites da democracia israelense
5 de maio de 2025
Revital Poleg Com a abertura da sessão de verão da Knesset nesta segunda-feira, 5 de maio, parece pairar uma nuvem pesada sobre o Parlamento israelense. Não se trata apenas das tensões habituais da coalizão ou de disputas políticas internas, mas sim de uma ameaça profunda e essencial ao próprio caráter democrático do Estado de Israel. […]