Engenharia do mapa eleitoral: como a política na Cisjordânia se tornou uma tática eleitoral calculada
26 ago 26

Engenharia do mapa eleitoral: como a política na Cisjordânia se tornou uma tática eleitoral calculada

Revital Poleg

Às vésperas de eleições, sistemas políticos costumam convergir para arenas conhecidas: confrontos acalorados nos estúdios de televisão, campanhas direcionadas nas redes sociais e promessas econômicas de grande impacto. Na Israel de 2026, porém, uma das arenas mais significativas em que a campanha eleitoral está sendo planejada e conduzida não se encontra nos comitês de propaganda, mas no terreno da Cisjordânia. Ao lado de temas candentes, como o conflito em Gaza ou a crescente tensão com a Síria e a Turquia, a política nos territórios tornou-se uma arena central na qual cada passo é diretamente condicionado pelo cálculo em torno do dia da votação.

Os anúncios sobre o avanço dos planos de construção na área E1 – aquela faixa de terra estratégica que conecta Jerusalém a Ma’ale Adumim – juntamente com as discretas mudanças institucionais na Administração Civil, já não pertencem apenas ao debate sobre planejamento territorial ou segurança. 

Trata-se da transferência de competências executivas, civis e jurídicas nos territórios das mãos do comandante militar para uma instância política civil, uma medida conduzida com vigor pelo ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, em sua função no Ministério da Defesa responsável pelos assuntos civis na Cisjordânia, e que conta com a anuência tácita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Tendo a campanha eleitoral como pano de fundo, trata-se de um mecanismo eleitoral sofisticado e calculado para promover uma engenharia da agenda pública, atar as mãos do próximo governo e impor uma armadilha estratégica aos partidos de oposição.

A escolha do momento atual não é casual. O encerramento das licitações para construção em E1 foi marcado precisamente para 19 de outubro de 2026, apenas dez dias antes do dia da eleição. Colocar a opinião pública e o sistema político diante de uma medida tão dramática permite ao governo deslocar o debate público de questões civis complexas, como a igualdade no fardo do serviço militar, o custo de vida, as falhas no sistema educacional e o funcionamento dos serviços públicos como um todo, para um dilema dicotômico e rígido: você é a favor da segurança de Jerusalém e da expansão dos assentamentos, ou a favor da capitulação à pressão internacional e da criação de um Estado palestino? 

Dessa forma, o atual governo obtém uma dupla vantagem política. De um lado, aumenta sua capacidade de manter coesa a sua base da direita ideológica, demonstrando “capacidade de execução” e contendo a transferência de apoio eleitoral para o flanco da extrema-direita, representado pelo partido de Itamar Ben-Gvir e por grupos radicais no terreno. De outro, monta uma armadilha calculada para os partidos de centro e de oposição que pretendem substituí-lo: caso se oponham à construção em E1, serão imediatamente rotulados como partidos que “abrem mão de Jerusalém” e se curvam a imposições externas; se a apoiarem, perderão o que lhes resta de diferenciação no campo político-diplomático e colocarão em risco suas relações institucionais com Washington e as capitais europeias, com vistas ao “dia seguinte”. 

Para além do ganho eleitoral imediato, o governo Netanyahu aciona aqui um mecanismo calculado de criação de “fatos consumados” no terreno. A transferência das competências de planejamento para o escalão político-civil condensa em poucos meses processos que antes levavam anos. Contratos, aprovações urbanísticas e compromissos orçamentários definidos às vésperas da eleição tornam o cancelamento do projeto caro, juridicamente complexo e politicamente quase insustentável para qualquer coalizão futura. A mensagem transmitida ao sistema político é inequívoca: mesmo que haja alternância de poder, a política territorial nos territórios já estará definida e ancorada na realidade.

As consequências dessa tática, contudo, não se encerram no ato de votar. Do ponto de vista jurídico e institucional, não é possível separar as normas de exercício do poder aplicadas além da Linha Verde do caráter democrático de Israel em seu próprio território. Quando os mecanismos de aplicação da lei operam de forma seletiva, quando o corpo técnico-jurídico é subordinado a considerações ideológicas e quando poderes soberanos são transferidos a órgãos políticos que promovem uma anexação de fato sem um debate constitucional transparente, a cultura de obediência à lei e os equilíbrios democráticos se desgastam dentro do próprio Estado.

Não é possível sustentar uma cultura de Estado de Direito em Israel e uma cultura contraditória na Cisjordânia. O processo em curso não é apenas uma mudança de fronteiras, mas uma medida deliberada destinada a produzir uma transformação profunda na cultura governamental e jurídica de Israel.

Na arena internacional, essa tática política interna se depara com um obstáculo persistente imposto pela realidade. Uma análise geográfica mostra que a construção em E1 secciona a Cisjordânia em duas unidades separadas, norte e sul, e desconecta Jerusalém Oriental de seu entorno palestino. Para a comunidade internacional, isso representa um dano severo à continuidade territorial e às perspectivas de concretização da solução de dois Estados. 

Se no passado as capitais ocidentais se limitavam a declarações de condenação pouco contundentes, um monitoramento recente, realizado pela Dra. Maya Sion-Tzidkiyahu, do Mitvim – o Instituto Israelense de Políticas Externas Regionais –, aponta agora para uma mudança dramática de tendência: a União Europeia e países-chave do Ocidente estão passando das declarações para medidas concretas e sanções direcionadas.

Segundo os resultados do monitoramento, o número de referências oficiais na Europa à imposição de sanções e à adoção de medidas jurídicas e econômicas contra empresas e empreiteiros envolvidos na construção nos territórios aumentou quase sete vezes em poucos meses, de apenas quatro menções no primeiro trimestre de 2026 para 27 no segundo trimestre. Paralelamente, a ruptura da continuidade territorial palestina põe em risco a perspectiva de normalização regional e a integração de Israel no Oriente Médio, objetivo que nem mesmo os países árabes moderados podem promover quando se bloqueia a possibilidade de um horizonte político.

O uso da política territorial para criar fatos no terreno e conduzir uma campanha eleitoral é uma iniciativa particularmente eficaz sob uma perspectiva política estreita. Permite à coalizão controlar a agenda, encurralar a oposição e tentar moldar o futuro do país antes mesmo de os votos serem contados.

Contudo, é precisamente aqui que se revela o paradoxo estratégico mais profundo: embora quanto mais essa medida consiga inviabilizar a ideia de uma divisão física do território, ela não faça desaparecer os milhões de palestinos que vivem na Cisjordânia. Em última análise, o ganho eleitoral de curto prazo acelera o encaminhamento de Israel para uma realidade de um único Estado entre o mar e o rio Jordão – uma realidade que ameaça diretamente sua identidade como Estado judeu e democrático.

A urgência avassaladora de estabelecer fatos no terreno não decorre de confiança na vitória, mas de uma ansiedade concreta diante da possibilidade de perda do poder. Trata-se de uma manobra política preventiva, destinada a engessar o Estado e deixar terra arrasada para qualquer coalizão futura.

O teste da oposição nestas eleições não é apenas saber se conseguirá substituir o governo, mas se será capaz de impedir que o governo atual defina de antemão os limites do possível para a administração que vier a sucedê-lo.

Imagem: WikimediaCommons

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Artigos Relacionados

Netanyahu sem freios: A anatomia da luta popular pelo futuro democrático de Israel
Netanyahu sem freios: A anatomia da luta popular pelo futuro democrático de Israel

Calendar icon 24 de março de 2025

Revital Poleg Em uma das maiores noites de protesto desde 7 de outubro, mais de 100 mil cidadãos saíram às ruas no último sábado à noite, ocupando praças centrais e vias principais por todo o país. O movimento de protesto reacendeu-se diante de uma recente série de ações extremamente preocupantes e sem precedentes por parte […]

Arrow right icon Leia mais
Sobre ocupar espaços: o relato de uma antropóloga negra e nordestina na equação entre Brasil e Israel
Sobre ocupar espaços: o relato de uma antropóloga negra e nordestina na equação entre Brasil e Israel

Calendar icon 28 de fevereiro de 2020

No último dia 19 de fevereiro, publiquei em meus perfis pessoais do instagram e facebook um breve relato da quão intensa foi a experiência de participar da conferência internacional ” Política e religião no Brasil e nas Américas: Igrejas evangélicas e suas relações com judaísmo, sionismo, Israel e comunidades judaicas”, resultado de uma iniciativa do […]

Arrow right icon Leia mais
Derrota da coalizão em votação é marco na vida política de Netanyahu
Derrota da coalizão em votação é marco na vida política de Netanyahu

Calendar icon 19 de junho de 2023

Revital Poleg Um verdadeiro drama aconteceu esta semana na Knesset, no dia 14 de junho, com o processo da escolha dos dois legisladores para o Comitê de Nomeações Judiciais. Mesmo um escritor particularmente talentoso não teria sido capaz de conceber o dia como foi, se tentasse.  O “herói” do evento, que também é o principal […]

Arrow right icon Leia mais