Quando os muros começam a cair
08 set 26

Quando os muros começam a cair

Karl Schurster

Pós-doutor em História pela Universidade Livre de Berlim, pesquisador do CNPq e assessor do Instituto Brasil Israel

 

Em A honra perdida de Katharina Blum, publicado em 1974, Heinrich Böll acompanhou os mecanismos pelos quais a linguagem pública transforma reputações, medos e os próprios limites do aceitável numa sociedade democrática. Em seus romances, ensaios e intervenções públicas na Alemanha do pós-guerra, interessava-lhe observar como essas fronteiras podiam mudar de lugar sem que ninguém apontasse o momento exato da transformação, à medida que também mudavam as maneiras como uma sociedade percebia o mundo e passava a reconhecer a si mesma. Essa é uma boa perspectiva para olhar a eleição regional realizada no último domingo na Saxônia-Anhalt, um dos 16 Estados federados da Alemanha, situado no leste do país. Ali, a Alternative für Deutschland (Alternativa para a Alemanha), a AfD, partido de extrema direita que já havia se tornado a segunda força nas eleições federais de 2025, obteve uma vitória de proporções inéditas. O resultado importa pelo tamanho e pelo que indica sobre alguns dos limites que organizaram a vida política da República Federal.

Durante décadas, um desses limites separou os partidos democráticos da extrema direita, enquanto outro vinculou a memória do Holocausto à responsabilidade especial da Alemanha pela segurança de Israel. A eleição não suprimiu nenhum deles, mas mostrou que ambos começam a ser discutidos de uma maneira que há poucos anos pareceria improvável. Do ponto de vista eleitoral, a vitória da AfD foi inequívoca. Criado em 2013 e progressivamente radicalizado ao longo da década seguinte, o partido encontrou no leste alemão sua principal base eleitoral. Na Saxônia-Anhalt, conquistou 43,8% dos votos e 39 das 83 cadeiras do parlamento estadual, deixando a União Democrata-Cristã (CDU) a uma enorme distância. O resultado ganha outra dimensão quando lembramos que a seção regional da AfD é classificada pelo serviço de proteção à Constituição da própria Saxônia-Anhalt como extremista de direita. O que durante anos foi chamado de Brandmauer (muro de contenção), destinado a impedir a cooperação dos partidos democráticos com a extrema direita, encontra agora seu teste mais difícil.

Ulrich Siegmund, candidato da AfD ao governo estadual, construiu parte de sua popularidade por meio de uma imagem sorridente, próxima e otimista, distante da agressividade que durante anos esteve associada à extrema direita alemã. Aos 35 anos, reúne centenas de milhares de seguidores nas redes sociais e fez da proximidade com seus eleitores um dos elementos centrais de sua campanha. A aparência de normalidade convive, porém, com posições muito mais radicais. Siegmund defende fortes restrições à imigração e deportações, esteve presente na reunião de Potsdam de 2023 em que se discutiram planos de expulsão em massa de imigrantes e, quando perguntado sobre o nazismo e o Holocausto, respondeu de maneira evasiva à possibilidade de caracterizar os anos entre 1933 e 1945 como o pior crime contra a humanidade. Sua trajetória ajuda a compreender como a radicalização política já não depende necessariamente de uma estética radical.

Nesse cenário ganha importância o Bündnis Sahra Wagenknecht (Aliança Sahra Wagenknecht), o BSW, criado em 2024 por Sahra Wagenknecht e outros dissidentes de Die Linke (A Esquerda), depois de anos de divergências sobre imigração, política externa e os rumos da esquerda alemã. O novo partido passou a ocupar um espaço peculiar na política do país ao combinar políticas sociais associadas à esquerda e uma crítica ao neoliberalismo com posições muito mais restritivas sobre imigração. Na política externa, rejeita o envio de armas à Ucrânia, defende negociações com a Rússia e questiona aspectos do alinhamento atlântico que marcou a República Federal. Não demorou para que aparecessem zonas de proximidade com a AfD, já que os dois partidos disputam parte do mesmo eleitorado no leste, criticam a política migratória, rejeitam o fornecimento de armas à Ucrânia e defendem outra relação com Moscou. Durante algum tempo, o BSW procurou preservar uma distância institucional da extrema direita, até que a mudança se tornou mais clara em 2026, quando passou a criticar abertamente o muro de contenção e admitiu governos sustentados por maiorias variáveis que incluíssem a AfD.

Depois da eleição, essa possibilidade deixou o terreno das hipóteses e passou a integrar o cenário político da Alemanha e da Europa. O BSW descarta, por enquanto, uma coalizão formal, mas admite negociar projetos com a extrema direita, e a candidata do partido de esquerda ao governo estadual, Claudia Wittig, admitiu a possibilidade de um governo minoritário. Existe uma diferença política importante entre formar uma coalizão com a AfD e permitir que ela governe sem participar formalmente do gabinete, embora, para um muro de contenção cuja função sempre foi impedir sua normalização como parceira de governo, essa distância possa se tornar cada vez menor. 

Em Doutor Fausto, Thomas Mann fez do destino de Adrian Leverkühn uma metáfora das transformações que conduziram a Alemanha à catástrofe. A aproximação se faz possível pela pergunta que sustenta o romance: em que momento aquilo que permanecia fora dos limites do aceitável começa a encontrar lugar em seu interior? A Saxônia-Anhalt recoloca essa pergunta no presente, quando a extrema direita se aproxima do governo sem precisar abandonar as posições que antes justificavam seu isolamento.

Uma diferença significativa entre BSW e AfD se torna mais clara quando a discussão chega a Israel. A AfD construiu nos últimos anos uma posição fortemente favorável ao país, associando esse apoio à crítica ao islamismo e à imigração muçulmana. Essa posição se articula a uma narrativa mais ampla sobre identidade europeia, imigração e a percepção do Islã como ameaça à sociedade alemã. O BSW percorreu caminho bastante diferente ao condenar publicamente o massacre perpetrado pelo Hamas em 7 de outubro e reconhecer o direito de existência de Israel, ao mesmo tempo que acusa o governo Netanyahu de graves violações do direito internacional humanitário. Sahra Wagenknecht e organizações do partido empregam o conceito de genocídio para descrever Gaza e a representação parlamentar do BSW apresentou propostas de embargo alemão de armas a Israel.

Em 2008, diante da Knesset, Angela Merkel afirmou que a responsabilidade histórica especial da Alemanha pela segurança de Israel fazia parte da Staatsräson (razão de Estado) de seu país e acrescentou que a segurança israelense jamais seria negociável para ela como chanceler. A expressão passou a sintetizar uma relação particular entre memória histórica e política externa, segundo a qual a responsabilidade pelo Holocausto não pertenceria apenas ao passado, produzindo também obrigações para a Alemanha no presente. O BSW coloca em questão o sentido dessas obrigações: o partido não rejeita a responsabilidade histórica alemã nem o direito de existência de Israel, mas contesta que dessa responsabilidade decorra apoio político e militar ao governo israelense independentemente de suas ações. Depois das ações militares em Gaza, essa distinção ganhou outra dimensão e alcançou a própria relação entre memória e política externa. A questão passa pelo que a Alemanha deve recordar e pelas obrigações políticas que essa memória projeta sobre o presente.

O paradoxo da Saxônia-Anhalt está nessa combinação, pois BSW e AfD aproximam-se o suficiente para colocar sob pressão a Brandmauer, o princípio de não cooperação com a extrema direita, enquanto permanecem separados pelo sentido atribuído à responsabilidade histórica da Alemanha por Israel. Um partido de extrema direita, favorável a Israel, pode chegar ao governo com a tolerância de uma força nascida da esquerda, que questiona a maneira pela qual a Alemanha tem traduzido essa responsabilidade em política de Estado. Suas proximidades convivem com diferenças importantes, embora estas pareçam cada vez menos capazes de conter formas de cooperação que, até pouco tempo atrás, pertenciam ao terreno do politicamente inaceitável.

O pensamento de Heinrich Böll pode nos ajudar a perceber como esse movimento se torna possível. Os limites de uma democracia raramente desaparecem de uma vez. A República Federal da Alemanha consolidou, em momentos distintos de sua história, dois limites importantes de sua cultura política: a recusa à cooperação dos partidos democráticos com a extrema direita e a compreensão de que a responsabilidade histórica pelo Holocausto confere à relação com Israel um caráter excepcional. A eleição da Saxônia-Anhalt não encerrou nenhum desses consensos, mas tornou mais difícil tratá-los como dados que dispensam explicação. A Brandmauer continua de pé. Depois de domingo, a pergunta mais desconfortável é: quantas passagens podem ser abertas em um muro, antes que ele deixe de cumprir sua função de separar?

***

Imagem da capa: Cartazes de campanha eleitoral política anexados a um poste em Lichtenberg antes das eleições estaduais de de 2026, mostrando um cartaz da AfD com o slogan “Berlim. Sicher. Machen.” (“Tornar Berlim Segura” em tradução livre) posicionado acima de um cartaz do Partido Social-Democrata  com o slogan “Krach gegen Nazis” (“Barulho contra os nazistas”, em tradução livre), onde o urso de Berlim está simbolicamente rasgando um logotipo da AfD. Crédito editorial: Achim Wagner / Shutterstock.com

Artigos Relacionados

Gaza mil dias depois: o dilema estratégico de Israel
Gaza mil dias depois: o dilema estratégico de Israel

Calendar icon 2 de julho de 2026

Mil dias após 7 de outubro, enquanto a atenção pública e internacional se volta para as frágeis negociações entre Israel e o Líbano, para a continuidade do confronto em campo contra o Hezbollah e para o delicado processo de barganha entre Washington e Teerã, a questão de Gaza parece ter sido relegada a um segundo […]

Arrow right icon Leia mais
A primavera israelense após a demissão do ministro da defesa
A primavera israelense após a demissão do ministro da defesa

Calendar icon 27 de março de 2023

Daniela Kresch TEL AVIV – Israel está em convulsão. Mais do que nunca e como nunca se viu no país, nem na Guerra do Yom Kipur, nem durante as intifadas, nem sob os ataques do Hamas. Neste domingo, dia 26 de março, algo aconteceu que que fez com que centenas de milhares de israelenses saíssem […]

Arrow right icon Leia mais
Tishá BeAv e a reforma jurídica: para onde a sociedade israelense está indo?
Tishá BeAv e a reforma jurídica: para onde a sociedade israelense está indo?

Calendar icon 26 de julho de 2023

Revital Poleg No dia seguinte à aprovação do projeto de lei que aboliu a cláusula de razoabilidade, Israel acordou diante de uma nova realidade. O ânimo nacional oscilava entre dois extremos: euforia entre os partidários da reforma jurídica e tristeza e dor profunda entre seus oponentes. Para os últimos, esse foi um dia triste para […]

Arrow right icon Leia mais