Quando Israel para: o Yom Kipur como espelho da sociedade israelense
21 set 26

Quando Israel para: o Yom Kipur como espelho da sociedade israelense

Revital Poleg

Durante um único dia por ano, Israel, vibrante e intensamente ativa, muda completamente de ritmo. O silêncio que toma conta do país no Yom Kipur revela uma ampla diversidade de formas de viver a identidade judaica em Israel: religiosas, tradicionais, laicas e pluralistas.

Na véspera de Yom Kipur, Israel muda por completo. Ruas normalmente congestionadas ficam vazias de carros, o transporte público é totalmente interrompido, o comércio fecha as portas, as sinagogas se enchem, e as ruas silenciosas passam a ser ocupadas por pedestres, crianças e famílias de bicicleta. Não há outro dia no calendário israelense em que, em tão poucas horas e de forma tão abrangente, o espaço público e o ritmo da vida se transformem ao mesmo tempo.

Esse silêncio, porém, está longe de significar uniformidade. Em Israel, o Yom Kipur é um ponto de encontro singular entre religião, tradição, família, memória e escolha individual. Pessoas com estilos de vida muito diferentes marcam a data de maneiras distintas e, ainda assim, compartilham as mesmas 25 horas, do pôr do sol até o anoitecer do dia seguinte.

Uma pesquisa recente do Instituto de Democracia Israelense, publicada às vésperas do Yom Kipur deste ano, ilustra bem essa complexidade. Entre os judeus israelenses, 74% costumam jejuar: 63% fazem o jejum completo e 11% jejuam apenas parte do dia, por opção. Outros 57% participam das orações de Yom Kipur nas sinagogas: sendo 51% em serviços ortodoxos e 6% em serviços reformistas ou do Judaísmo Conservador (Masorti).

Diferentes formas de pertencer
A diferença entre a proporção de pessoas que jejuam e a das que participam das orações revela uma parte importante dessa realidade. O jejum pode ser observado no âmbito privado e não exige presença em uma sinagoga nem vínculo com uma comunidade. A oração, por sua vez, se realiza em uma experiência comunitária compartilhada. Essa diferença mostra que a ligação com o Yom Kipur pode ser profunda e significativa também fora de uma estrutura religiosa institucionalizada.

O significado atribuído a esse dia também varia. Para alguns, o jejum faz parte da fé religiosa e do cumprimento de um mandamento. Para outros, está ligado à tradição familiar, à memória ou ao sentimento de pertencimento ao povo judeu, à família e à própria tradição judaica. Assim, as mesmas 24 horas podem assumir significados muito diferentes e, ainda assim, permanecer como uma referência comum para amplos setores da sociedade.

Tradicionalismo: uma identidade em si
O grupo que se define como tradicionalista não religioso, uma das duas maiores categorias de identidade na sociedade judaica israelense, mostra com especial clareza por que a divisão habitual entre “religiosos” e “laicos” não conta toda a história. Noventa por cento das pessoas desse grupo costumam jejuar em Yom Kipur, e muitas também participam das orações, um dado que mostra até que ponto a tradição continua sendo um componente significativo de sua identidade.

O tradicionalismo israelense não é necessariamente um ponto intermediário entre religiosidade e laicidade. Para muitos, trata-se de uma identidade plena, que combina liberdade de escolha no modo de vida com uma ligação profunda à família, aos costumes, às festas judaicas e à memória coletiva. Em Yom Kipur, essa combinação se torna especialmente visível.

Judeus laicos: tradição por escolha
Também entre aqueles que se definem como laicos há uma ligação significativa com o Yom Kipur: 47% costumam jejuar e 20% participam das orações. Para 16% dos judeus laicos, o Yom Kipur é o único dia do ano em que vão à sinagoga

Esses dados não alteram sua identidade laica. Mostram, porém, que a laicidade israelense pode conviver com uma relação seletiva com a tradição. A oração de Kol Nidrei, que abre os serviços religiosos na noite de Yom Kipur, ou a Ne’ilá, que encerra o dia, podem representar, para quem não frequenta a sinagoga no restante do ano, um encontro anual com um ritual, uma melodia familiar, uma memória de família ou um momento pessoal de reflexão e exame de consciência.

O pluralismo também faz parte do quadro
A maioria dos que participam das orações de Yom Kipur frequenta serviços ortodoxos, mas 6% de toda a população judaica participa de serviços reformistas e conservadores. A composição desse grupo é particularmente reveladora: metade dos participantes se define como laica, 29% como tradicionalista não religiosa e 19% como tradicionalista religiosa.

Esses números revelam outra dimensão da identidade judaica em Israel. As estruturas não ortodoxas oferecem a parte da sociedade uma forma diferente de participar da oração e da experiência comunitária judaica, ampliando as possibilidades de escolha e abrindo espaço para expressões religiosas e comunitárias também fora do marco ortodoxo.

Um mesmo dia, diferentes significados
O Yom Kipur não elimina as divergências existentes em Israel em torno de religião e Estado, gênero ou pluralismo. Mas mostra que é possível compartilhar um mesmo espaço sem exigir que todos lhe atribuam o mesmo significado.

Uma pessoa jejua e reza durante todo o ano ou boa parte dele; outra jejua em casa; uma terceira vai à sinagoga apenas uma vez por ano; e outra não jejua, mas, simplesmente por fazer parte da sociedade israelense, também participa do silêncio excepcional que envolve o país naquele dia.

Talvez aí esteja não apenas a singularidade do Yom Kipur israelense, mas também uma das características mais profundas do Estado judeu: não a uniformidade, e sim a capacidade de uma sociedade extremamente diversa, vibrante e, sobretudo nos últimos anos, profundamente dividida, de parar junta. Durante 24 horas, ela compartilha tempo, espaço e memória, enquanto cada pessoa lhes atribui seu próprio significado.

Na realidade israelense de hoje, em que o denominador comum por vezes parece mais estreito do que nunca, a própria existência desse dia lembra que compartilhar algo não exige uniformidade.

 

Foto: WikiCommons

Artigos Relacionados

Explosão em Beirute e analistas brasileiros: uma reflexão
Explosão em Beirute e analistas brasileiros: uma reflexão

Calendar icon 7 de agosto de 2020

Na terça-feira, dia 04 de agosto, uma explosão de grande magnitude aconteceu na zona portuária de Beirute, capital do Líbano. Imediatamente análises de cunho político e de segurança internacional começaram a surgir sobre o que teria causado aquela explosão. Considerando o histórico da região e do próprio país, o Líbano experienciou guerras civis longas, conflitos […]

Arrow right icon Leia mais
Apertem os cintos, o golpe judicial voltou
Apertem os cintos, o golpe judicial voltou

Calendar icon 10 de janeiro de 2025

Daniela Kresch TEL AVIV – Lembram da malfadada “Reforma Judicial” (mais para golpe contra a democracia…), que levou centenas de milhares de israelenses às ruas antes dos ataques de 7 de outubro de 2023 e que parecia ter sido engavetado com a guerra? Sim, o golpe voltou. E com uma espécie de “harmonização facial” para […]

Arrow right icon Leia mais
Aceitar ou não as condições do Hamas para soltar os reféns?
Aceitar ou não as condições do Hamas para soltar os reféns?

Calendar icon 25 de janeiro de 2024

Daniela Kresch TEL AVIV – Entre um boato e outro sobre um possível novo acordo para a libertação dos 136 reféns sequestrados pelo grupo terrorista palestino Hamas no fatídico 7 de outubro, os israelenses enfrentam o maior dilema dos 75 anos de história do país. Eles estão divididos entre dois caminhos terríveis. De um lado, […]

Arrow right icon Leia mais