Quando Israel para: o Yom Kipur como espelho da sociedade israelense
Revital PolegDurante um único dia por ano, Israel, vibrante e intensamente ativa, muda completamente de ritmo. O silêncio que toma conta do país no Yom Kipur revela uma ampla diversidade de formas de viver a identidade judaica em Israel: religiosas, tradicionais, laicas e pluralistas.
Na véspera de Yom Kipur, Israel muda por completo. Ruas normalmente congestionadas ficam vazias de carros, o transporte público é totalmente interrompido, o comércio fecha as portas, as sinagogas se enchem, e as ruas silenciosas passam a ser ocupadas por pedestres, crianças e famílias de bicicleta. Não há outro dia no calendário israelense em que, em tão poucas horas e de forma tão abrangente, o espaço público e o ritmo da vida se transformem ao mesmo tempo.
Esse silêncio, porém, está longe de significar uniformidade. Em Israel, o Yom Kipur é um ponto de encontro singular entre religião, tradição, família, memória e escolha individual. Pessoas com estilos de vida muito diferentes marcam a data de maneiras distintas e, ainda assim, compartilham as mesmas 25 horas, do pôr do sol até o anoitecer do dia seguinte.
Uma pesquisa recente do Instituto de Democracia Israelense, publicada às vésperas do Yom Kipur deste ano, ilustra bem essa complexidade. Entre os judeus israelenses, 74% costumam jejuar: 63% fazem o jejum completo e 11% jejuam apenas parte do dia, por opção. Outros 57% participam das orações de Yom Kipur nas sinagogas: sendo 51% em serviços ortodoxos e 6% em serviços reformistas ou do Judaísmo Conservador (Masorti).
Diferentes formas de pertencer
A diferença entre a proporção de pessoas que jejuam e a das que participam das orações revela uma parte importante dessa realidade. O jejum pode ser observado no âmbito privado e não exige presença em uma sinagoga nem vínculo com uma comunidade. A oração, por sua vez, se realiza em uma experiência comunitária compartilhada. Essa diferença mostra que a ligação com o Yom Kipur pode ser profunda e significativa também fora de uma estrutura religiosa institucionalizada.
O significado atribuído a esse dia também varia. Para alguns, o jejum faz parte da fé religiosa e do cumprimento de um mandamento. Para outros, está ligado à tradição familiar, à memória ou ao sentimento de pertencimento ao povo judeu, à família e à própria tradição judaica. Assim, as mesmas 24 horas podem assumir significados muito diferentes e, ainda assim, permanecer como uma referência comum para amplos setores da sociedade.
Tradicionalismo: uma identidade em si
O grupo que se define como tradicionalista não religioso, uma das duas maiores categorias de identidade na sociedade judaica israelense, mostra com especial clareza por que a divisão habitual entre “religiosos” e “laicos” não conta toda a história. Noventa por cento das pessoas desse grupo costumam jejuar em Yom Kipur, e muitas também participam das orações, um dado que mostra até que ponto a tradição continua sendo um componente significativo de sua identidade.
O tradicionalismo israelense não é necessariamente um ponto intermediário entre religiosidade e laicidade. Para muitos, trata-se de uma identidade plena, que combina liberdade de escolha no modo de vida com uma ligação profunda à família, aos costumes, às festas judaicas e à memória coletiva. Em Yom Kipur, essa combinação se torna especialmente visível.
Judeus laicos: tradição por escolha
Também entre aqueles que se definem como laicos há uma ligação significativa com o Yom Kipur: 47% costumam jejuar e 20% participam das orações. Para 16% dos judeus laicos, o Yom Kipur é o único dia do ano em que vão à sinagoga
Esses dados não alteram sua identidade laica. Mostram, porém, que a laicidade israelense pode conviver com uma relação seletiva com a tradição. A oração de Kol Nidrei, que abre os serviços religiosos na noite de Yom Kipur, ou a Ne’ilá, que encerra o dia, podem representar, para quem não frequenta a sinagoga no restante do ano, um encontro anual com um ritual, uma melodia familiar, uma memória de família ou um momento pessoal de reflexão e exame de consciência.
O pluralismo também faz parte do quadro
A maioria dos que participam das orações de Yom Kipur frequenta serviços ortodoxos, mas 6% de toda a população judaica participa de serviços reformistas e conservadores. A composição desse grupo é particularmente reveladora: metade dos participantes se define como laica, 29% como tradicionalista não religiosa e 19% como tradicionalista religiosa.
Esses números revelam outra dimensão da identidade judaica em Israel. As estruturas não ortodoxas oferecem a parte da sociedade uma forma diferente de participar da oração e da experiência comunitária judaica, ampliando as possibilidades de escolha e abrindo espaço para expressões religiosas e comunitárias também fora do marco ortodoxo.
Um mesmo dia, diferentes significados
O Yom Kipur não elimina as divergências existentes em Israel em torno de religião e Estado, gênero ou pluralismo. Mas mostra que é possível compartilhar um mesmo espaço sem exigir que todos lhe atribuam o mesmo significado.
Uma pessoa jejua e reza durante todo o ano ou boa parte dele; outra jejua em casa; uma terceira vai à sinagoga apenas uma vez por ano; e outra não jejua, mas, simplesmente por fazer parte da sociedade israelense, também participa do silêncio excepcional que envolve o país naquele dia.
Talvez aí esteja não apenas a singularidade do Yom Kipur israelense, mas também uma das características mais profundas do Estado judeu: não a uniformidade, e sim a capacidade de uma sociedade extremamente diversa, vibrante e, sobretudo nos últimos anos, profundamente dividida, de parar junta. Durante 24 horas, ela compartilha tempo, espaço e memória, enquanto cada pessoa lhes atribui seu próprio significado.
Na realidade israelense de hoje, em que o denominador comum por vezes parece mais estreito do que nunca, a própria existência desse dia lembra que compartilhar algo não exige uniformidade.
Foto: WikiCommons
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