Funes nos campos de concentração
Karl SchursterIrineu Funes, personagem de Jorge Luis Borges, tinha uma memória extraordinária. Depois de um acidente, tornou-se capaz de recordar cada detalhe do que havia visto ou experimentado. Lembrava a forma das nuvens de uma tarde distante, as folhas de uma árvore, as diferenças quase imperceptíveis entre dois instantes. Sua memória era tão precisa que reconstruir um único dia exigia outro dia inteiro. Borges imaginou um homem condenado à particularidade absoluta, para quem pensar exigia aquilo que lhe parecia impossível, “esquecer diferenças”, generalizar e abstrair.
Voltei a esse conto ao examinar algumas publicações que circularam nas redes sociais brasileiras durante a disputa eleitoral de 2026. Em uma delas, duas jovens encenam o encontro entre amigas em um suposto campo de concentração de um candidato à Presidência. Em outra, personagens aparecem vestidos com uniformes listrados em um cenário produzido por inteligência artificial, cuja aparência remete aos campos nazistas. A legenda sugere o reencontro entre pessoas que teriam compartilhado aquela experiência, compondo uma brincadeira facilmente compreendida mesmo por quem pouco conhece a história daqueles lugares e das pessoas que ali estiveram aprisionadas.
Parte dessas publicações expressa, por meio do humor e da sátira, o receio de que uma eventual vitória da ultradireita represente novas formas de perseguição às minorias. Em outras, a ironia serve para ridicularizar adversários, chegando, nas manifestações mais extremas, à defesa explícita do confinamento de opositores políticos. As intenções são distintas e seria equivocado desconhecer o papel histórico da sátira na crítica ao poder. O que impressiona é a naturalidade com que os campos de concentração passaram a integrar o vocabulário das disputas brasileiras, utilizados tanto para expressar o medo da perseguição quanto para manifestar o desejo de exercê-la.
Os campos nazistas integravam um sistema de perseguição, encarceramento, exploração e terror, com funções distintas ao longo do regime. Auschwitz, por exemplo, constituiu um complexo de campos de concentração e extermínio, onde centenas de milhares de pessoas foram submetidas à fome, ao trabalho forçado e à violência, enquanto mais de um milhão foram assassinadas. Seus uniformes, instalações e cercas pertenciam a uma realidade histórica concreta e hoje podem ser reproduzidos como elementos de uma composição visual, empregados para representar situações inteiramente alheias às experiências daqueles que foram deportados.
A inteligência artificial amplia essa possibilidade ao permitir que qualquer pessoa produza uma imagem de si mesma em um campo de concentração, escolha a aparência dos personagens e organize uma cena suficientemente convincente para circular entre fotografias comuns. O reconhecimento de alguns elementos visuais é suficiente para identificar o cenário, dispensando conhecimentos sobre sua história. A tecnologia permite, assim, fabricar a aparência de uma experiência pessoal em um lugar onde o usuário jamais esteve, atribuindo à imagem uma familiaridade que decorre exclusivamente de sua capacidade de simulação.
A relação com Funes ajuda a compreender uma dificuldade particular desse fenômeno. Borges imaginou um personagem para quem cada detalhe possuía uma singularidade absoluta, tornando extraordinariamente difícil reconhecer aquilo que experiências diferentes poderiam ter em comum. Nas redes sociais, encontramos o movimento inverso, no qual acontecimentos historicamente distintos são reunidos sob uma mesma representação de violência e perseguição. A facilidade de reconhecer um campo nazista por sua aparência permite utilizá-lo como referência para situações muito diferentes, tornando secundárias as circunstâncias que definiram sua existência.
Sobrevivente de Auschwitz, Tadeusz Borowski descreveu a vida concentracionária por meio de situações nas quais a violência havia sido incorporada às rotinas de trabalho, alimentação e sobrevivência. Seus personagens conheciam os campos pela experiência cotidiana de uma realidade imposta, marcada pela necessidade de adaptação a condições extremas. A utilização desses mesmos lugares como cenários de encenações voluntárias nas redes sociais introduz uma relação inteiramente diferente com a experiência concentracionária, cuja aparência pode agora ser reproduzida e modificada conforme as necessidades de uma publicação.
Durante décadas, sobreviventes procuraram encontrar palavras para transmitir experiências que frequentemente resistiam à linguagem. A possibilidade de fabricar em segundos a aparência de uma vivência limite introduz outra relação com esse passado, pois a imagem artificial permite assumir visualmente a posição de um prisioneiro sem qualquer vínculo com as condições históricas de seu encarceramento. Testemunhar envolve uma experiência vivida, uma trajetória e uma responsabilidade diante do acontecimento narrado, elementos que a capacidade de produzir imagens convincentes jamais poderá substituir.
A facilidade com que hoje podemos nos imaginar dentro de um campo de concentração diz muito sobre nossa relação com o passado e sobre os usos políticos que fazemos dele. Funes poderia recordar cada detalhe de um uniforme listrado, mas saber o que significou vesti-lo exigiria outra forma de conhecimento.
Karl Schurster é Pós-doutor em História pela Universidade Livre de Berlim, pesquisador do CNPq e assessor do Instituto Brasil Israel.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
(Foto: WkimediaCommons – modificada por IA)
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