Nos bastidores da campanha eleitoral em Israel
Revital PolegUma ampla maioria dos israelenses, dos dois lados do espectro político, concorda em praticamente uma única coisa: as eleições de 27 de outubro são decisivas. Cada lado, naturalmente, teme um desfecho diferente. Ainda assim, a cerca de uma semana da votação, é difícil perceber isso nas ruas. Não há grandes comícios, os outdoors são poucos, as gráficas relatam uma queda acentuada nas encomendas e, em Bnei Brak, a principal avenida, normalmente tomada por cartazes eleitorais dos partidos ultraortodoxos, está quase sem propaganda. O país que, durante boa parte dos últimos quatro anos, lotou as praças todos os sábados à noite, hoje parece quase não estar em período eleitoral.
A explicação mais imediata está no cansaço e no desgaste: o trauma dos ataques de 7 de outubro, três anos de guerra, longos períodos de serviço na reserva e a sensação de que a disputa já está praticamente definida e de que ir às ruas pouco alteraria o quadro eleitoral. É uma explicação válida, mas apenas parcial. A campanha não desapareceu. Ela migrou para outras arenas, em mais de um sentido.
A primeira mudança é visível: das praças para o celular. Segundo o projeto “Ze ba-AI”, da Universidade Aberta de Israel, a proporção de conteúdo criado ou processado com inteligência artificial nas publicações de partidos e políticos saltou de 3% no fim de julho para cerca de 14% atualmente, e aproximadamente um terço desse conteúdo tem origem no Likud. O índice é muito superior ao registrado nas últimas eleições na Alemanha e nos Países Baixos, e não inclui contas não oficiais nem grupos de WhatsApp e Telegram, onde uma parcela significativa da campanha ocorre fora da vista do grande público. A campanha, aparentemente silenciosa, não silenciou; apenas migrou para uma arena muito mais difícil de acompanhar e de medir em termos de impacto.
A segunda mudança é mais profunda: da persuasão para a mobilização eleitoral. A migração de votos para fora do campo da direita, que redesenhou o mapa político depois de 7 de outubro, praticamente estancou. Em uma pesquisa do Canal 12, cerca de três quartos dos entrevistados disseram que não existe possibilidade de passarem para o outro bloco. Segundo Menachem Lazar, do Maariv, se as campanhas ainda produzem algum efeito, ele está sobretudo na decisão de comparecer ou não às urnas. Quando quase ninguém muda de bloco, o resultado passa a depender de quem fica em casa. Os quartéis-generais se adaptaram a essa realidade: em vez de convencer o público em geral, mapeiam quem precisa ser levado às urnas. A operação eleitoral do partido de Eisenkot descreve um mapeamento que chega ao nível de bairros e até de eleitores individuais, com base em padrões de votação anteriores e dados das redes sociais. A própria equipe afirma que “aprendeu muito com os húngaros”, em referência à oposição húngara que derrotou Viktor Orbán em abril. O que, de fora, parece silêncio é, por dentro, um mecanismo de segmentação precisa que já não depende de uma presença ostensiva nas ruas.
É aqui que surge uma assimetria entre os dois blocos. Em uma pesquisa do Maariv realizada no início de outubro, 86% dos eleitores da oposição disseram ter certeza de que votarão, contra 81% dos eleitores da coalizão. No próprio Likud, estima-se que cerca de 200 mil eleitores de direita não estejam mudando de lado, mas possam simplesmente deixar de votar. Por isso, o partido investe em uma operação de campo com visitas domiciliares, telefonemas e um novo aplicativo voltado à mobilização de eleitores. A experiência passada mostra que isso pode fazer diferença: em uma eleição anterior, segundo estimativas, o esforço de mobilização eleitoral rendeu ao Likud entre três e cinco cadeiras adicionais.
É desse quadro que deriva a lógica das duas campanhas. Segundo jornalistas e estrategistas, o bloco da mudança evita protestos e escaladas para não oferecer a Netanyahu o tipo de adversário que mobiliza sua base. Na ciência política, há um nome para isso: “desmobilização assimétrica”, expressão associada às campanhas moderadas de Angela Merkel, baseadas na ideia de não dar ao campo adversário um motivo para se mobilizar. Netanyahu opera na direção oposta. Repete incessantemente uma única mensagem, “direita ou Palestina”, destinada a transformar frustração em medo. No Likud, isso é dito abertamente: uma campanha eleitoral adormecida não favorece Netanyahu.
No centro dessa disputa está a questão dos partidos árabes. Segundo as pesquisas, nenhum dos blocos alcança 61 cadeiras, e o bloco da mudança só poderia chegar à maioria com o apoio, ainda que indireto, de parte desses partidos. No campo de Eisenkot, sabe-se que o caminho para uma maioria pode passar pela abstenção do Ra’am ou por uma “rede de segurança” oferecida pela Lista Conjunta. Justamente por isso, não há interesse em transformar a eleição em um plebiscito sobre essa questão. Os próprios eleitores da oposição não parecem particularmente preocupados com essa possibilidade: a maioria aceita esse tipo de apoio indireto e também não acredita inteiramente em seus líderes quando eles o descartam.
A sensibilidade está entre os eleitores moderados de direita, aos quais Eisenkot se dirige, bem como na posição de Avigdor Lieberman, que anunciou que não apoiará nenhum governo minoritário. Em grande medida, o silêncio da oposição é uma tentativa de administrar essa contradição sem explicitá-la.
Mesmo dentro do bloco da direita, o quadro é mais complexo do que parece. Em uma pesquisa do Canal 12, eleitores da coalizão foram questionados sobre a possibilidade de um governo minoritário liderado por Netanyahu que dependesse da abstenção do Ra’am: 41% disseram considerar essa opção aceitável, e 49% disseram que não. A rejeição a uma parceria com um partido árabe, ao que parece, depende em boa medida de a quem ela serve.
A terceira mudança ocorre dentro dos próprios blocos. Nas últimas duas semanas, tanto Eisenkot quanto Netanyahu lançaram campanhas em torno da ideia do “maior partido”, cujo objetivo principal não é atrair votos do bloco adversário, mas dos partidos parceiros do próprio bloco. Eisenkot busca ampliar sua vantagem para reforçar sua reivindicação de receber do presidente Isaac Herzog o mandato para formar o governo.
Segundo analistas, ele também procura induzir Netanyahu a enfraquecer os pequenos partidos da direita, alguns dos quais oscilam em torno do limiar eleitoral de 3,25%. Todo voto dado a um partido que não ultrapassa esse limiar é desperdiçado e, em uma eleição apertada, isso pode ser decisivo. Netanyahu, por sua vez, tenta empurrar Ofer Winter para abaixo desse limiar e conter Ben-Gvir. Os parceiros de Eisenkot no bloco da mudança alertam para o custo dessa estratégia: Lapid lembra que seu campo já tentou quatro vezes a estratégia do “maior partido” e, em todas elas, foi Netanyahu quem formou o governo.
Daí decorre a última mudança, talvez a mais importante: do dia da eleição para o dia seguinte. Quando as pesquisas mostram, semana após semana, que nenhum dos blocos chega às 61 cadeiras, as campanhas já disputam o que acontecerá depois da divulgação dos resultados: quem receberá primeiro do presidente de Israel o mandato para formar o governo, que governo será considerado legítimo e quem controlará o novo Knesset. Surge, assim, um paradoxo claro para o eleitor: dizem-lhe que estas são eleições decisivas, enquanto as pesquisas indicam que talvez não haja uma definição e que o país possa até caminhar para uma nova rodada eleitoral. Para parte do eleitorado, isso levanta uma pergunta simples: se o impasse deve continuar, até que ponto é importante sair para votar agora?
É aí que reside a aposta dos dois blocos. Uma campanha desenhada para não despertar o adversário pode também adormecer sua própria base. Os eleitores da oposição parecem mais determinados a votar, mas menos confiantes na vitória do que os eleitores da coalizão. Netanyahu aposta que pode enfraquecer seus parceiros sem perder votos para o outro bloco. Mas o silêncio nas ruas não significa ausência de disputa. É simplesmente a nova forma que ela assumiu.
Em 27 de outubro, a questão não será quem conseguiu convencer mais eleitores, mas quem conseguiu mobilizar melhor seu próprio bloco sem despertar o adversário, e se essa mobilização será suficiente para garantir uma vitória ou apenas levar a mais uma rodada eleitoral.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Wikimidia Commons
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