O antissemitismo de Mahmoud Abbas vem à tona
Daniela KreschDaniela Kresch
TEL AVIV – O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, fez declarações antissemitas, gravadas em vídeo, que chocaram muita gente nas redes sociais. Numa reunião recentemente do Conselho Revolucionário do partido Fatah, Abbas disse que Hitler matou os judeus no Holocausto nazista não por causa da sua religião, mas por causa de seu suposto “papel social”, que teria a ver com “usura, dinheiro e assim por diante”.
É claro que a base do antissemitismo nazista foi o preconceito racial, baseado exatamente em noções terríveis como essa, de que todos os judeus têm dinheiro e praticam usura extrema. Isso é enraizado na Europa há milênios, junto com libelos de sangue contra judeus, como a ideia de que judeus mataram Jesus Cristo e matam crianças para fazer pão ázimo para Pessach.
Mahmoud Abbas fez alegações semelhantes no passado. Ele já negou o número de 6 milhões de judeus mortos no Holocausto, dizendo que foram muitos menos judeus mortos. Ele também já comparou a política israelense em relação aos palestinos, parte de um conflito de décadas, com “50 Holocaustos”, apesar de ser impossível e risível comparar as duas coisas.
Na reunião do Fatah, Abbas também delineou a infundada teoria conspiratória de que os judeus ashkenazitas não são descendentes do povo Hebreu bíblico, mas dos Cazares, um povo seminômade que vivia nos arredores do atual Cazaquistão (daí o nome do país). Então, não seriam semitas. A teoria, nunca provada, afirma que os Cazares se converteram em massa ao judaísmo na Idade Média, mas nunca foram judeus “de verdade”.
É claro que isso também é uma falácia que seria uma desculpa para afastar os judeus europeus dos judeus bíblicos, do Oriente Médio, que seriam os “verdadeiros judeus”. Há muitos motivos para isso, mas o principal deles é descaracterizar os judeus ashkenazitas como tendo sido parte do Povo Judeu bíblico e do Judaísmo, que deu origem ao Cristianismo. Para Abbas, é uma maneira também de dizer que os judeus ashkenazitas, ou europeus, não têm direito a estar em Israel, que o sionismo surgido na Europa há 130 anos é uma anomalia.
Esses tipos de teorias conspiratórias sobre judeus são muito difundidos por todo o Oriente Médio e são parte do problema. Não apenas Abbas, mas muitos líderes da região repetem teorias antissemitas perigosas, negam o Holocausto e mais. Em Israel, há árabes-israelenses e palestinos jerusalemitas que negam até mesmo que tenha havido dois templos judaicos em Jerusalém e que judeus viveram na região da antiga Judeia/Palestina no passado. Jesus Cristo, para eles, era “palestino”, não judeu.
As declarações de Abbas geraram uma série de condenações em Israel, na Europa e nos EUA, e até fizeram com que Abbas perdesse uma medalha honorífica do prefeito de Paris.
Também fizeram com que um grupo de mais de cem acadêmicos e intelectuais palestinos, que vivem principalmente nos Estados Unidos e na Europa, assinassem uma carta aberta condenando os “comentários moral e politicamente repreensíveis”.
Na carta, eles dizem que as falas de Abbas são enraizadas numa teoria racial difundida na época, o genocídio nazista do Povo Judeu e que nasceu do antissemitismo, do fascismo e do racismo. “Rejeitamos veementemente qualquer tentativa de diminuir, deturpar ou justificar o antissemitismo, os crimes nazistas contra a Humanidade ou o revisionismo histórico em relação ao Holocausto”, diz a carta.
É interessante que as palavras de Abbas, conhecido por israelenses e palestinos como Abu Mazen, tenham chocado tanta gente agora. Há décadas, ele é conhecido por nutrir ideias e teorias esquisitas sobre os judeus, sobre o sionismo e sobre Israel.
Os israelenses escutam isso há tempos dele e por isso muitos desconfiam dele como um parceiro para negociações de paz, apesar de Abu Mazen sem também conhecido por uma posição anti-terrorismo bem diferente de seu antecessor Yasser Arafat.
Entre os palestinos, a popularidade de Abbas também não é alta. Aos 86 anos, ele é impopular e não é visto como um grande democrata. Afinal, não há eleições para presidente na Autoridade Palestina desde que Abbas foi eleito, em 2006.
Ao que parece, em sua idade avançada, Abbas está mostrando uma faceta que já era conhecida dele, mas que o Ocidente se negava a ver ou a aceitar.
Mesmo quem se diz atualmente pró-palestino (como se isso fosse incongruente com ser a favor do melhor para Israel também) precisa entender que preconceitos e teorias conspiratórias só atrasam ou inviabilizam a paz.
Foto:© European Union 2016 – European Parliament.
Artigos Relacionados
PARTILHA DA PALESTINA FAZ 75 ANOS EM MEIO A UMA REALIDADE NADA OTIMISTA
28 de novembro de 2022
Daniela Kresch TEL AVIV – No centro de Tel Aviv há uma rua com o nome de um brasileiro: a Rua Oswaldo Aranha. É quase uma ruela, pequena e curta. Mas não deixa de ser uma homenagem ao diplomata do Brasil mais conhecido e reverenciado em Israel. Foi o ex-embaixador brasileiro que, há exatos 75 anos, presidiu […]
Imprensa israelense dá destaque à invasão de Brasília
8 de janeiro de 2023
Daniela Kresch TEL AVIV – A imprensa israelense deu destaque sem precedentes à invasão criminosa do Congresso, do STF e do Palácio do Planalto. Todos os sites de notícias do país deram as informações como manchete principal de seus portais. Do YNET (o site do maior jornal, o Yedioth Aharonoth) ao site do Kan 11 […]
Quem são os proxies do Irã e como estão envolvidos na guerra contra Israel
4 de março de 2026
Após o início da guerra e a eliminação da cúpula da liderança iraniana, as organizações do Eixo Xiita reagem com uma combinação de condenações severas, mensagens de luto e declarações sobre a continuação da luta. No entanto, a maioria delas evita, neste estágio, uma adesão ativa à campanha. Hezbollah (Líbano): Adesão à guerra Já na […]