30 anos sem Rabin e a eleição de Mamdani: sinais de um afastamento que não dá para ignorar
David DiesendruckDavid Diesendruck*
Este mês de novembro marcou os 30 anos do assassinato de Yitzhak Rabin, um evento que transformou a política israelense e deixou até hoje a sensação de um caminho interrompido. Não se trata de revisitar nostalgicamente o processo de Oslo, mas de reconhecer que Rabin representava algo raro: um líder capaz de enxergar ao longo prazo, mesmo quando desconfiava dos parceiros de negociação e sabia dos riscos envolvidos.
Em paralelo, também neste início de novembro, Nova York, lar da maior comunidade judaica fora de Israel, elegeu Zohran Mamdani, um político assumidamente crítico de Israel. Pode parecer coincidência ou mera estatística eleitoral. Mas talvez seja um sintoma de algo maior: a mudança profunda na relação de parte significativa dos judeus da diáspora com Israel.
Não se trata de demonizar Mamdani ou santificar Rabin. O ponto é outro: entender o que esse movimento diz sobre nós.
Rabin não era um romântico.
Era militar, pragmático, e manteve reservas sobre Arafat e o processo de paz. Mas compreendia que Israel só sobreviveria forte e legítimo se mantivesse visão estratégica que incluísse concessões, não como fraqueza, mas como investimento no futuro.
Seu esforço ia além do território e da segurança. Ele se dedicou a construir pontes com a diáspora, especialmente nos Estados Unidos. Não porque concordasse com seus interlocutores, mas porque enxergava o valor estratégico daquele vínculo. Rabin discordava, mas explicava; defendia sua visão, mas escutava; mantinha relações mesmo quando considerava as opiniões “irrelevantes” para a tomada de decisão.
E, sobretudo, entendia que a conexão emocional entre os judeus do mundo e Israel precisava ser cultivada.
O contraste com o presente preocupa.
O senador Lindsey Graham, republicano e historicamente aliado de Israel, disse algo duro, mas honesto: que ignorar a questão palestina e descartar a solução de dois Estados pode isolar Israel de seus parceiros mais importantes, inclusive dos EUA.
Não é uma fala “de esquerda”.
É um alerta de alguém que, por décadas, esteve entre os apoiadores mais firmes de Israel no Congresso americano.
Quando aliados tradicionais começam a expressar desconforto, é sinal de que a situação deixou de ser uma discussão interna israelense. Virou um fator de risco estratégico.
Mas, talvez o indicador mais claro dessa mudança esteja entre os jovens judeus nos Estados Unidos. Pesquisas recentes mostram que, abaixo dos 40 anos, o engajamento com Israel vem diminuindo, não por indiferença, mas por desconforto.
Eles ainda valorizam sua identidade judaica, mas percebem um desalinhamento crescente entre seus valores e o que veem no governo israelense.
A eleição de Mamdani provavelmente recebeu maioria do voto judaico jovem não porque esses jovens desejam o fim de Israel, mas porque buscam uma forma de expressar sua frustração.
É um sintoma de afastamento, não de ruptura existencial.
E sintomas ignorados viram doenças graves.
A lembrança de Rabin nos convida a revisitar a ideia de que a força de Israel não depende apenas de tanques e tecnologia.
Depende também e talvez sobretudo de legitimidade política, alianças duradouras e conexões emocionais.
A diáspora sempre foi parte desse ecossistema.
Enfraquecer esse vínculo é jogar contra nós mesmos.
A distância entre governo e cidadãos críticos — inclusive judeus — não deveria ser tratada como ameaça, mas como parte natural de uma conversa familiar difícil.
Expressar preocupação com rumos políticos não é abandono; é participação.
Rabin sabia disso.
Discordava, mas conversava.
Enxergava o debate como parte do compromisso.
Talvez, trinta anos depois, essa seja a lição mais urgente: a conexão entre Israel e o judaísmo global precisa ser cultivada — especialmente quando há discordância.
Se a reação automática diante da crítica virar exclusão, corremos o risco de tornar irrelevante aquilo que deveria ser nossa maior vantagem: uma comunidade diversa, global, que se importa o suficiente para não desistir.
* David Diesendruck é cofundador e diretor do IBI – Instituto Brasil-Israel
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: WikimediaCommons
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