Israel e Líbano: é possível construir um futuro estável?
Revital PolegComecemos pelas boas notícias: pela primeira vez na história, diplomatas israelenses e libaneses se reuniram no último dia 3 de dezembro para promover cooperação econômica e outras formas de colaboração. Esses contatos diretos, realizados com mediação americana, trouxeram de forma inédita à mesma mesa representantes civis de dois países vizinhos cuja história é marcada por guerras e derramamento de sangue. Agora, em vez de discutirem questões militares ou de segurança, as partes se reuniram para tratar de temas civis e práticos, em um esforço inicial de criar uma base para relações e cooperação econômica entre Israel e o Líbano. Tudo isso ocorreu de forma desvinculada das ações militares que Israel continua a realizar contra o Hezbollah.
É uma primeira e importante tentativa de estabelecer uma base para relações e cooperação econômica entre Israel e Líbano, ampliando o diálogo entre os dois países para além das discussões militares e do monitoramento do cessar-fogo, em particular. Mesmo que a assinatura de acordos políticos concretos ainda esteja muito distante, começa a se delinear aqui uma infraestrutura preliminar e significativa para futuras negociações sobre normalização. O processo já começou, e ambos os lados o reconheceram positivamente. Um novo encontro está previsto ainda para este mês, no qual as partes deverão apresentar propostas concretas para cooperação econômica em áreas como agricultura, tecnologia, transporte e infraestrutura.
Sinais de otimismo? Sim, sem dúvida. E, ainda assim, como sempre no cenário do Oriente Médio, esta nunca é toda a história – e a realidade é muito mais complexa e desafiadora.
A decisão de enviar uma delegação israelense para se reunir com autoridades libanesas foi tomada em um momento de crescente tensão entre Israel e o Líbano. Ela ocorreu diante da insistência americana em evitar o colapso do acordo de cessar-fogo entre os dois países, assinado há apenas um ano (27/11), e que hoje se encontra em situação frágil. Tudo isso no contexto dos esforços de fortalecimento militar do Hezbollah e das alegações israelenses de que o Exército Libanês não é capaz – e tampouco deseja – impor o cumprimento das violações cometidas pela organização terrorista. Provas sobre essas alegações foram apresentadas a Morgan Ortagus, enviada do presidente Trump.
É consenso que o desafio enfrentado pelo governo libanês é enorme, em razão da composição demográfica do país, onde, segundo estimativas, os xiitas – a base natural do Hezbollah – representam mais de 30% da população. Esse dado também influencia a composição do Exército Libanês, que evita sistematicamente entrar em áreas classificadas como civis – o que, na prática, permite ao Hezbollah se incorporar nelas e continuar utilizando civis libaneses como escudos humanos.
Recentemente, o Departamento do Tesouro dos EUA publicou um dado alarmante. Desde janeiro de 2025, poucos meses após o “ataque dos pagers” e a eliminação de Nasrallah, o Irã transferiu cerca de um bilhão de dólares ao Hezbollah. Isso ocorreu sob o olhar supostamente atento da comunidade internacional e do regime de sanções contra o Irã. As transferências, como se descobriu, são realizadas por meio de casas de câmbio em diversas partes do mundo, com destaque para a Turquia, ou “à moda antiga” – por meio de malas diplomáticas recheadas de dinheiro enviadas do Irã para Beirute. Recursos adicionais também foram transferidos através da diáspora libanesa, por meio de negócios privados e empresas de fachada. As instituições financeiras do Hezbollah continuam operando livremente no Líbano, recebendo e movimentando fundos sem impedimentos.
Na prática, como publicou o Alma Research and Education Center, que se dedica à análise da frente norte de Israel, apesar do duro golpe militar sofrido, o Irã continua operando uma “economia alternativa” e mantendo rotas comerciais paralelas com o apoio de países como Rússia, China, Venezuela e Coreia do Norte. Tudo isso ocorre apesar das sanções internacionais, que o Ocidente ainda acredita serem capazes de alterar o rumo dos acontecimentos. Isso também evidencia que o próprio Irã, embora afetado pelas sanções e pela guerra com Israel, está longe de entrar em colapso.
É, sem dúvida, uma realidade frustrante. Um alto funcionário israelense afirmou recentemente, em referência às conversas diplomáticas, que “o fato de Israel entrar e participar de elementos econômicos dentro do Líbano é uma declaração inequívoca de que o Hezbollah terminou seu papel dentro do Líbano” – uma afirmação que talvez soe excessivamente categórica. Paralelamente, o Ocidente, especialmente os Estados Unidos e, no caso do Líbano, também a França, busca identificar pequenos sinais de otimismo que surgem ocasionalmente na política local e ampliá-los, com a esperança de alterar a realidade e permitir a estabilização do país.
No entanto, o desafio libanês não é apenas político, mas também religioso e social. Em um país estruturado sobre uma lógica sectária complexa (sunitas, xiitas, cristãos maronitas, cristãos ortodoxos e drusos) e sobre a divisão de recursos e poder entre esses grupos, o Hezbollah não é apenas um exército terrorista e uma base avançada do Irã. É, também, o principal provedor de serviços civis para a população xiita libanesa, mesmo hoje, após seu enfraquecimento militar.
A estrutura civil do Hezbollah lembra muito a atuação do Hamas em Gaza: ele administra escolas, serviços de saúde, distribuição de alimentos e outras necessidades comunitárias – tudo isso de forma legal – e utiliza esses recursos como base para construir uma “sociedade da resistência” entre os xiitas de todo o Líbano. Esse aparato também lhe garante legitimidade e permite que continue empregando a população civil como escudo humano, armazenando armas em áreas residenciais e operando militarmente no coração de comunidades civis.
Qualquer tentativa de desmantelar o Hezbollah exige, portanto, desmantelar suas instituições civis e construir uma alternativa funcional. Em outras palavras: para que essa realidade se transforme, o Estado libanês precisa ser capaz de substituir o conjunto de serviços prestados pelo Hezbollah por uma estrutura estatal organizada, abrangente e estável. Se adicionarmos a isso o desafio militar decorrente da composição do Exército Libanês, e que, segundo estimativas, é composto por cerca de 50% de xiitas (além do contingente da própria organização terrorista), fica claro que o desafio diante do governo libanês é imenso.
Ainda assim, é evidente que, em todos os aspectos, Israel não pode aceitar uma situação em que o Hezbollah continue representando uma ameaça em sua fronteira. Por isso, o esforço americano para alterar essa realidade é, antes de tudo, de interesse estratégico direto para Israel. Essa compreensão exige que Israel tome todas as medidas necessárias para eliminar a ameaça e, ao mesmo tempo, coopere com iniciativas destinadas a melhorar a realidade libanesa e gerar novas oportunidades que beneficiem os próprios cidadãos do Líbano, oportunidades que eles reconhecerão como valiosas e não desejarão perder. O encontro civil realizado recentemente é, sim, um passo de construção de confiança nessa direção. É suficiente? Claro que não. É obrigatório, em paralelo, continuar enfraquecendo a capacidade militar do Hezbollah, interromper seus fluxos financeiros e proteger a população do norte? Sem dúvida.
Um ano após o cessar-fogo na fronteira com o Líbano, que foi precedido por sofrimento prolongado para os moradores do norte – desintegração dolorosa de comunidades inteiras, deslocamento de mais de um ano e meio, paralisia econômica quase total e um processo de recuperação ainda difícil, somado a uma assistência governamental cada vez mais reduzida – os moradores da região, dos quais apenas 85% retornaram até agora, encontram-se novamente sob o temor real de uma renovada ofensiva do Hezbollah. Isso não pode ser permitido.
Podem Israel e Líbano construir e desenvolver relações de boa vizinhança e tranquilidade? A resposta é: podem e, sobretudo, devem. E, por isso, nesta realidade muitas vezes ilógica da nossa região, em que seus componentes e as ferramentas disponíveis para lidar com eles às vezes se contradizem, é nosso dever – com uma mão – continuar lutando contra o terrorismo do Hezbollah e contra seus apoiadores e financiadores, e – com a outra – apoiar e cooperar com os esforços liderados pelos Estados Unidos e pelo governo libanês para estabilizar a região.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: WikimediaCommons
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