Gaza à sombra de Teerã: o perigoso vácuo estratégico que se reconfigura
13 mar 26

Gaza à sombra de Teerã: o perigoso vácuo estratégico que se reconfigura

Enquanto os olhos do mundo se voltam para os céus do Irã e para a troca de golpes entre Washington, Jerusalém e Teerã, a Faixa de Gaza foi empurrada para um canto obscuro da agenda internacional. Esse “eclipse” é conveniente para todos: para a administração Trump, permite focar na “cabeça da serpente” iraniana; para o governo de Israel, concede um silêncio relativo na frente sul enquanto a atenção se volta para o norte e para o leste; e até para o Hamas, possibilitando uma reconstrução silenciosa, longe das câmeras.

No entanto, essa calmaria é uma ilusão de ótica. Sob o radar, Gaza não está estagnada. Ela atravessa um processo de entrincheiramento governamental perigoso, no qual o Hamas aprende a governar a partir dos escombros, aproveitando o vácuo estratégico deixado por Israel – talvez até por um sentimento de exaustão e fadiga do interminável “atoleiro” de Gaza.

Um dos movimentos centrais para moldar o “dia seguinte”, baseado no plano de 20 pontos de Donald Trump, foi a criação do “Comitê Nacional de Gestão de Gaza”, um órgão composto por 15 tecnocratas profissionais, sem afiliação política, encarregados de gerir a vida civil. No papel, isso deveria marcar o início de uma alternativa de governo que romperia o vínculo entre a população e o Hamas. Na prática, dados acumulados do terreno mostram que o comitê se tornou apenas uma “folha de parreira”.

O Hamas, com sua característica astúcia política, não neutralizou o comitê nem o combateu; em vez disso, optou por “adotá-lo” como uma fachada conveniente para seus objetivos. Os membros do comitê, a maioria dos quais não ousa permanecer fisicamente na Faixa sem proteção cerrada, dependem totalmente dos mecanismos de segurança do Hamas para aplicar decisões e garantir a própria vida. Criou-se, assim, um modelo de “duplo governo”: a comunidade internacional – ou ao menos aqueles que ainda encontram fôlego para olhar para Gaza neste momento – vê ternos e gravatas de profissionais, mas, no terreno, a distribuição de recursos, a tributação e a ordem pública permanecem nas mãos de quem detém as armas. O Hamas aprendeu a lição libanesa: você não precisa do título oficial para ser o soberano de fato.

A questão mais crítica hoje é o controle da cadeia de suprimentos. O Hamas compreendeu que, em uma realidade de destruição total, o controle sobre alimentos e combustível é a ferramenta política mais poderosa. É uma economia de sobrevivência pura: enquanto a passagem de Kerem Shalom opera em volumes limitados (cerca de 200 caminhões por dia), o Hamas assumiu o controle das rotas de distribuição interna.

O caminho para cada saco de farinha ou litro de diesel passa por intermediários identificados com o movimento. O controle físico dos armazéns de ajuda traduz-se diretamente em controle sobre a população: quem distribui a comida nos campos de refugiados inundados é o verdadeiro soberano aos olhos do cidadão de Gaza, mergulhado na sobrevivência básica. Israel controla as passagens externas, mas no interior da Faixa, o vazio de poder é preenchido por quem conhece cada beco e túnel, e por quem sabe transformar ajuda humanitária em um mecanismo de dependência política.

Enquanto as Forças de Defesa de Israel (FDI) focam na zona de amortecimento (a “Linha Amarela”) e na destruição pontual de infraestruturas, o Hamas aproveita o desvio de atenção para o Irã e o Hezbollah para uma reconstrução interna acelerada. Avaliações de inteligência atualizadas indicam tentativas de reorganização de brigadas, treinamentos em estruturas subterrâneas que sobreviveram aos ataques e o armazenamento de armamentos entre as ruínas de bairros densamente povoados.

A narrativa que o Hamas vende hoje aos seus homens é a de “resiliência estratégica”. Eles olham para o norte, veem Israel preso em uma exaustiva campanha multifrontal e concluem que o tempo trabalha a seu favor. Cada dia em que Israel não apresenta uma alternativa governamental real em Gaza é um dia em que o Hamas aprofunda suas raízes novamente na terra arrasada. Para o Hamas, o status quo atual não é uma derrota, mas uma trégua tática que lhe permite se reinventar como uma força de guerrilha governante.

O vácuo de poder em Gaza não é apenas resultado da guerra, mas de uma profunda paralisia estratégica. Israel enfrenta hoje uma realidade em que o modelo de governo militar – que a coalizão de Netanyahu ficaria feliz em implementar – simplesmente não está em pauta sob o plano Trump. Por outro lado, a única alternativa prática que, ao menos teoricamente, traz esperança de moldar uma nova realidade, o fomento de uma liderança palestina alternativa e influente, enfrenta uma resistência política feroz dentro da própria coalizão.

A abstenção de uma decisão não constitui uma solução, mas sim uma receita certa para problemas futuros. Como vimos no Líbano e em outros cenários, o vácuo de poder é um organismo vivo que precisa ser preenchido. Na ausência de uma definição israelense sobre a identidade do soberano civil, as chaves permanecem, de fato, nas mãos do Hamas, mesmo que sejam chaves enferrujadas de uma cidade em ruínas.

A avaliação estratégica é que, assim que uma decisão ou cessar-fogo for alcançado na frente iraniana, a comunidade internacional, liderada pela administração Trump, voltará todo o seu peso para Gaza. No entanto, o plano de 20 pontos do presidente norte-americano, que visa uma reconstrução em larga escala da Faixa de Gaza, deve colidir com uma realidade regional mais complexa e desconfiada do que antes.

A normalização com a Arábia Saudita, que muitos esperavam ser acelerada pelo “vento favorável” da campanha contra o Irã, parece agora – talvez de forma surpreendente – mais distante do que nunca. A guerra regional não apenas não aproximou Riad de Jerusalém, como talvez tenha gerado o efeito oposto. A instabilidade atual, que ameaça alterar o equilíbrio de poder regional de formas ainda não totalmente claras, somada ao receio árabe de uma hegemonia israelense excessivamente dominante, cuja impressionante força militar na guerra desperta admiração, mas também profunda preocupação, desafia agora a viabilidade de futuros arranjos estratégicos.

Neste impasse, Israel pode se ver sob uma forte pressão americano-árabe para conceder “dentes” reais ao comitê de tecnocratas ou, alternativamente, permitir o surgimento de uma liderança palestina substituta com legitimidade no terreno. Essas exigências existem de forma separada das previsíveis demandas sauditas que, de todo modo, exigirão um horizonte político para a criação de um Estado palestino como condição prévia para a normalização.

Enquanto Israel provavelmente tentará manobrar e evitar uma definição, corre o risco de que o vácuo político leve a uma solução imposta externamente, da qual será muito difícil escapar, podendo inclusive favorecer um fortalecimento adicional do Hamas.

Gaza representa hoje um laboratório de “gestão de conflito” em condições extremas. Embora Israel tenha conseguido conter as ameaças militares imediatas, falha (ou evita) a construção de uma alternativa governamental sustentável, o que pode levar a uma situação em que outros decidam por nós. O silêncio atual é uma “trégua tática” que o Hamas aproveita ao máximo para manter sua relevância no dia seguinte.

Quando os aviões retornarem das missões em Teerã, o problema de Gaza estará à espera na mesa do Gabinete, mais complexo e intrincado do que nunca. A escolha israelense de “não escolher” é uma decisão estratégica por si só, uma decisão que permite ao Hamas sobreviver à tempestade iraniana e nos aguardar na próxima esquina. A questão fundamental não é o que faremos amanhã de manhã em Gaza, mas que arquitetura político-estratégica e de segurança Israel pretende estabelecer ali no futuro previsível. Sem um objetivo político claro, as conquistas operacionais em Teerã podem acabar se traduzindo em uma derrota estratégica em Rafah.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

 

Foto: Pixabay

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