As eleições em Gaza – entre governança local e escalada regional
05 maio 26

As eleições em Gaza – entre governança local e escalada regional

Revital Poleg

Na Faixa de Gaza, ocorreu nos últimos dias um processo duplo e aparentemente contraditório. De um lado, um evento civil quase “normal”: eleições municipais em Deir al-Balah, as primeiras desde 2006, na única cidade do enclave que ainda preserva continuidade urbana e mínimo de funcionamento institucional. De outro, prosseguem negociações delicadas sobre a “segunda fase” do acordo de cessar-fogo, no quadro mais amplo do plano Trump e do Conselho de Paz criado sob sua égide. Tudo isso ocorre enquanto o Hamas segue se rearmando e aprofundando seus vínculos com o eixo liderado pelo Irã. Esses dois trilhos – o civil e o internacional-securitário – entrelaçam-se e criam uma realidade em que qualquer tentativa de reconstruir uma autoridade civil em Gaza se dá sob a sombra de um potencial constante de escalada regional.

 

As eleições em Deir al-Balah, realizadas em 25 de abril pela Autoridade Palestina (em paralelo às eleições locais na Cisjordânia), estão longe de ser apenas um episódio local. Elas ocorreram no coração de uma faixa devastada pela guerra, em que bairros inteiros e infraestruturas foram destruídos, centenas de milhares de pessoas foram deslocadas e as estruturas administrativas do Hamas praticamente deixaram de funcionar, enquanto um modelo de governança consensual e sustentável para o “dia seguinte” ainda não existe. Nesse contexto, a decisão de permitir que os moradores da cidade elegessem um novo conselho municipal, sob o guarda-chuva da Autoridade Palestina e como um teste único desse tipo em Gaza, transforma-se em uma iniciativa experimental: verificar se é possível, em meio ao caos militar e humanitário, recriar um foco de legitimidade civil que não se apoie no Hamas. 

 

A votação em si ocorreu em urnas instaladas em tendas e locais provisórios, em uma realidade de desconfiança profunda, fadiga social e condições de vida duríssimas, de uma sociedade exausta que tem dificuldade em acreditar que as urnas possam alterar o seu cotidiano. Como resultado, o comparecimento foi relativamente baixo – cerca de 23% dos eleitores registrados. 

 

Ainda assim, o quadro político resultante é bastante revelador: a lista associada à Fatah conquistou seis cadeiras, listas independentes e tecnocráticas levaram cinco, e a lista ligada ao Hamas teve de se contentar com apenas duas cadeiras. O Hamas decidiu não participar oficialmente com uma lista própria – para não conferir legitimidade a um processo visto como uma plataforma política da Fatah e da Autoridade Palestina –, mas permitiu que candidatos a ele vinculados concorressem em uma lista local separada. Com isso, o movimento foi empurrado pela primeira vez em muitos anos para a periferia formal da arena política local em Gaza, após um longo período em que era praticamente o único referencial para qualquer decisão no terreno. 

 

Do ponto de vista de parte dos atores envolvidos na “segunda fase” do cessar-fogo – em especial os membros do Conselho de Paz –, as eleições em Deir al-Balah não são apenas um evento municipal, mas uma espécie de “laboratório vivo” do cenário futuro: um teste restrito para saber se uma única cidade consegue funcionar com base em um governo local que não esteja subordinado ao Hamas, mas que goze de legitimidade palestina e apoio externo. O êxito desse processo pode transformar Deir al-Balah em um protótipo para outros centros de poder em Gaza; seu fracasso, caso desmorone sob pressão armada, disfunção administrativa ou desconfiança pública, reduzirá significativamente o espaço para uma mudança política real no enclave e recolocará o debate entre duas opções problemáticas de antemão: o retorno a uma estrutura de governo controlada de fato pelo Hamas ou uma presença israelense profunda e prolongada na Faixa, que tampouco é vista como solução estável ou desejável.

 

Paralelamente, prosseguem os esforços diplomáticos para definir o desenho da “segunda fase” do acordo de cessar-fogo – a etapa que deveria transformar a trégua temporária em um arranjo mais estável, oferecendo respostas para as questões de governança em Gaza, dos arranjos de segurança e do desarmamento. Nas últimas semanas, foram realizadas no Cairo rodadas intensas de negociações, sob a liderança de Egito, Catar e Estados Unidos, nas quais os mediadores tentaram avançar em um formato que, em teoria, coloca o desarmamento do Hamas como princípio orientador, ainda que, na prática, já se examinem modelos de desmilitarização gradual ou parcial, movimento que provoca controvérsia em Jerusalém. Dentro desse quadro atua o Conselho de Paz, que há meses conduz contatos discretos com interlocutores israelenses e palestinos sobre a composição de um governo civil temporário em Gaza, a divisão de competências entre o comitê tecnocrático palestino e atores internacionais, e os mecanismos destinados a impedir que o Hamas volte a controlar de fato o enclave. 

 

O tempo, porém, também trabalha na direção oposta. No papel, a segunda fase deveria incluir o desmantelamento sistemático das capacidades militares do Hamas como condição indispensável para a reconstrução. Na prática, o movimento atua a partir de dentro e de fora da Faixa para seguir se armando e reconstruir parte da infraestrutura de poder que sobreviveu à guerra. Sua cadeia de comando em Gaza foi duramente atingida, o comando operacional foi rompido e a alta liderança no enclave foi morta ou forçada à clandestinidade; ainda assim, o núcleo duro da organização continua a recorrer ao eixo Irã–Hezbollah–Catar para preservar capacidades de foguetes, renovar capacidades de produção e assegurar a disponibilidade de armas leves e de médio calibre para suas unidades no terreno. Para o Hamas, qualquer cenário político em que o movimento não seja totalmente apagado do mapa palestino – mesmo que perca parte do controle direto sobre Gaza, exige a preservação de um núcleo de força armada que dissuada rivais internos e externos e lhe permita seguir se apresentando como ator central na arena palestina e regional. 

A situação é especialmente complexa. Do ponto de vista de Israel, não faz sentido um arranjo internacional que não inclua mecanismos robustos de supervisão e garantias contra a reconstrução plena da infraestrutura de terror em Gaza, tanto subterrânea quanto à superfície. Para grande parte dos atores internacionais, por outro lado, é politicamente inviável um modelo em que Israel continue a controlar militarmente a Faixa por tempo prolongado; daí a pressão para promover uma alternativa palestina-internacional que assuma a responsabilidade cotidiana civil e de segurança. Para amplos segmentos do público palestino, qualquer modelo em que uma autoridade local como Deir al-Balah dependa quase exclusivamente de apoio internacional, mas careça de capacidade real de se proteger – militar, política e economicamente – é visto como receita para dependência e para uma autonomia apenas de fachada. 

Acima de tudo isso paira a mudança no foco estratégico israelense. Desde o fim de fevereiro, Israel passou a se concentrar na campanha conjunta com os Estados Unidos em relação ao Irã e, depois, sob um cessar-fogo cujo futuro permanece incerto, ao mesmo tempo em que travava uma nova rodada de confrontos com o Hezbollah na fronteira norte, em curso há cerca de três semanas, sob um status de “cessar-fogo” imposto de fato no contexto das tratativas entre Washington e Teerã, que o estabeleceram como condição para a abertura do Estreito de Ormuz (não implementada) e para negociações (ainda estagnadas). Nesse contexto, a Gaza da primavera de 2026 não espera decisões ordenadas: enquanto a atenção pública e política israelense se deslocou para leste e para o norte, a realidade no enclave e a disputa sobre sua identidade futura continua a se desenvolver em um curso quase separado, influenciado pela arena regional, mas não totalmente determinado por ela. 

O resultado reflete um descompasso entre a necessidade estratégica e a atuação na prática. Justamente quando o governo Netanyahu estava, quase por força das circunstâncias, obrigado a promover um processo estruturado de afastamento do Hamas do poder em Gaza, por meio de uma moldura internacional como o Conselho de Paz, após uma campanha longa e sangrenta, Israel não se apressa em investir os recursos políticos e administrativos necessários para formular um modelo coerente ou extrair lições do experimento de governança em Deir al-Balah. Em vez de uma estratégia de “moldar a realidade”, a política para o enclave – inclusive em coordenação com o Conselho de Paz – segue, em grande medida, a lógica de “gestão de riscos”: bloquear rotas de rearmamento do Hamas, impedir a consolidação militar ostensiva no terreno e aceitar, na prática, que a pressão americana e internacional acabe por moldar as soluções em Gaza, ainda que não correspondam às posições de Jerusalém. 

Nesse contexto, as eleições em Deir al-Balah e a negociação da segunda fase não são eventos separados. As eleições buscam, de baixo para cima, fazer emergir um núcleo de nova legitimidade civil; a negociação tenta, de cima para baixo, estabelecer uma estrutura que permita a esse tipo de governo existir sem se tornar instrumento do Hamas ou uma estrutura sob influência israelense; e o contínuo rearmamento do Hamas ameaça, a qualquer momento, fazer colapsar todo o experimento e devolver o enclave ao padrão conhecido de governo miliciano sob cerco.

Do ponto de vista prático, a chave reside hoje em três níveis. No plano internacional, na medida em que o Conselho de Paz deixe de ser apenas uma moldura declaratória e se torne um quadro vinculante, que assuma responsabilidade real pela desmilitarização, pela reconstrução e pela criação de mecanismos de governança adequados em Gaza. No plano palestino, na medida em que o Hamas esteja disposto a se desarmar, conforme exigido nesta fase pelo plano Trump, e a permitir a implementação efetiva do modelo pretendido, no qual os representantes do novo governo sejam escolhidos nas urnas e não designados em túneis. E, no plano israelense, na capacidade de Jerusalém de escolher entre permanecer aprisionada em um discurso de “gestão de ameaças” ou definir, com clareza, que tipo de Gaza está disposta a ter em sua fronteira dentro de cinco e dez anos – e traduzir essa definição em ação consistente, tanto na arena diplomática quanto no terreno.

Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Foto: WikimediaCommons

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