O Pacto de Meca e o desafio estratégico para Israel
19 ago 26

O Pacto de Meca e o desafio estratégico para Israel

Revital Poleg

A arquitetura de segurança do Oriente Médio passou, nos últimos dias, por uma inflexão estratégica: a assinatura, em 7 de agosto de 2026, do “Pacto de Meca”, acordo de defesa mútua entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, segundo o qual um ataque contra qualquer um dos três países será considerado um ataque contra todos eles. Para além da dimensão simbólica de sua assinatura em Meca, no coração do mundo islâmico, o acordo reúne, em uma única estrutura, três polos de poder complementares: a força financeira saudita, as capacidades militares e a indústria de defesa da Turquia, e o peso dissuasório do Paquistão, único país muçulmano detentor de armas nucleares. 

Para Israel, cuja política regional se baseou, nos últimos anos, também em convergências de interesses com os países do Golfo diante do Irã, trata-se de um novo elemento em um quebra-cabeça regional já complexo, que exige avaliar o significado dessa nova estrutura, o que levou à sua criação, por que ela surgiu justamente agora, o que cada um dos signatários busca obter por meio dela e quais podem ser suas implicações para Israel, entre novos riscos e oportunidades que podem se abrir. 

A imprensa internacional apressou-se em qualificar a aliança como uma “OTAN muçulmana”, mas a comparação é superficial e prematura. Ao menos até o momento, não foram anunciados mecanismos conjuntos de comando, deslocamento de forças, exercícios militares integrados ou regras para o emprego da força, e o objetivo operacional da estrutura permanece igualmente ambíguo. Essa ambiguidade não constitui necessariamente uma fraqueza, podendo, ao contrário, fazer parte da própria lógica estratégica do arranjo: permite aos três países transmitir dissuasão e solidariedade sem comprometer-se antecipadamente com uma guerra que não desejam travar.

Para compreender o motivo do acordo ter sido assinado justamente agora, é preciso começar pela Arábia Saudita. A guerra com o Irã, a ameaça de mísseis e drones, a atuação dos houthis e a vulnerabilidade das rotas marítimas no Mar Vermelho e no Golfo deixaram claro para Riad até que ponto sua segurança depende de proteção externa e quão insuficiente essa proteção pode se mostrar em um momento de crise. O acordo não nasceu apenas do temor em relação ao Irã, mas também do reconhecimento de que a antiga ordem de segurança, na qual os Estados Unidos eram vistos como garantidores exclusivos e automáticos da segurança, sofreu uma erosão significativa em decorrência da guerra com o Irã. 

Isso não significa que a Arábia Saudita esteja dando as costas a Washington. O país continua dependente de sistemas norte-americanos, de inteligência e do guarda-chuva político dos Estados Unidos; a Turquia permanece membro da OTAN; e o Paquistão não pode substituir Washington como provedor de segurança para o Golfo. O acordo, contudo, reflete uma mudança mais profunda: não uma dúvida quanto ao poder militar dos Estados Unidos, mas uma incerteza crescente sobre sua disposição de empregá-lo nas condições e no ritmo exigidos por uma crise. Riad não está substituindo um patrono; está diversificando sua exposição ao risco e construindo camadas adicionais de segurança. 

Para a Turquia, o acordo atende a outro objetivo. Ancara aporta um grande exército, uma indústria de defesa altamente desenvolvida, com destaque para drones e sistemas avançados de combate, e busca converter essas capacidades em maior influência no Golfo e na agenda regional. Isso não transforma a Arábia Saudita em um apêndice da Turquia; ao contrário, Riad incorpora capacidades turcas à sua própria estratégia, preservando ao mesmo tempo sua posição como centro de gravidade da estrutura. A competição entre Riad e Ancara por influência e liderança no mundo sunita não desapareceu; foi incorporada a uma lógica de cooperação baseada em interesses. 

O Paquistão completa o triângulo. O país aporta um exército experiente, vínculos históricos com os dois parceiros e, acima de tudo, um peso dissuasório singular. Não há base pública para afirmar que o acordo ofereça à Arábia Saudita ou à Turquia um guarda-chuva nuclear, nem que Islamabad tenha se comprometido a empregar armas nucleares em sua defesa. Ainda assim, a mera presença do único Estado muçulmano dotado de capacidade nuclear amplia os cálculos estratégicos de qualquer ator que considere atacar um dos signatários e confere ao acordo uma importância política que vai além de suas dimensões operacionais conhecidas até o momento. 

Para Israel, a importância do acordo decorre da mudança nas opções estratégicas disponíveis na região. Durante anos, Jerusalém operou com base na premissa de que a ameaça iraniana levaria os Estados árabes pragmáticos a uma arquitetura de segurança na qual Israel seria um parceiro indispensável, premissa que constituiu um dos pilares dos Acordos de Abraão, que Israel e os Estados Unidos ainda esperam ampliar. O Pacto de Meca não elimina essa possibilidade, mas apresenta uma alternativa: a Arábia Saudita pode construir mecanismos regionais de dissuasão que não dependam de Israel. Quanto mais alternativas Riad tiver, maior será seu poder de barganha diante de Jerusalém e de Washington, e menor será a capacidade de Israel de se apresentar como um ativo de segurança insubstituível. 

A Turquia acrescenta a esse quadro uma dimensão particularmente sensível. Suas relações com Israel se deterioraram profundamente em razão da guerra em Gaza e das divergências em torno do futuro da Faixa, além de profundas discordâncias sobre a Síria e a configuração da ordem regional. Nesse contexto, o Pacto de Meca não é apenas uma nova plataforma para a projeção de poder de Ancara no Golfo. Ele também fortalece a capacidade turca de contestar a integração regional de Israel e de limitar sua margem de manobra em arenas estratégicas. Ainda que essa intenção não esteja declarada no texto do acordo, ela é coerente com a política regional adotada por Erdogan desde 7 de outubro.

Esse rearranjo torna ainda mais complexo o caminho para uma normalização entre Israel e Arábia Saudita. Desde 7 de outubro, uma aproximação pública com Israel tornou-se politicamente mais custosa para Riad, que passou a vincular qualquer avanço nesse processo a progressos concretos na questão palestina. O Pacto de Meca não explica essa posição, mas, ao ampliar as alternativas estratégicas sauditas, reduz a pressão para que Riad apresente Israel como parceiro indispensável para sua segurança regional.

Nos primeiros dias após a assinatura, Washington e Jerusalém optaram por não divulgar reações oficiais detalhadas, em linha com o interesse de Trump e Netanyahu em evitar um confronto público, sobretudo com Riad. Em Israel, contudo, a preocupação com o fortalecimento regional de Erdogan não é nova, embora tenha se intensificado. Foi essa preocupação que levou Jerusalém, já há alguns anos, a estruturar o que Netanyahu definiu como um “hexágono de alianças”, envolvendo Índia, Grécia, Chipre e outros parceiros. Essa rede, concebida inicialmente como contrapeso ao eixo xiita liderado pelo Irã, ganha agora novo peso diante do que Israel vê como um emergente eixo sunita radical. 

O Pacto de Meca é um indicador de uma inflexão no sistema de alianças do Oriente Médio: os três signatários sinalizam que pretendem reduzir sua dependência exclusiva da proteção de Washington e ampliar sua capacidade de decisão autônoma. O verdadeiro desafio de Israel não é tentar bloquear essa tendência, mas fortalecer as parcerias já existentes e, paralelamente, promover medidas de construção de confiança, buscar entendimentos e preservar sua capacidade de influenciar essa configuração, em vez de acabar fora do jogo quando a nova ordem tiver sido moldada sem sua participação. 

Essa tarefa caberá ao próximo governo. 

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Foto: WikimediaCommons

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