Explosão em Beirute e analistas brasileiros: uma reflexão
07 ago 20

Explosão em Beirute e analistas brasileiros: uma reflexão

Karina Calandrin

Na terça-feira, dia 04 de agosto, uma explosão de grande magnitude aconteceu na zona portuária de Beirute, capital do Líbano. Imediatamente análises de cunho político e de segurança internacional começaram a surgir sobre o que teria causado aquela explosão. Considerando o histórico da região e do próprio país, o Líbano experienciou guerras civis longas, conflitos com países vizinhos e uma política interna agitada com o Hezbollah como um importante partido político e reconhecido por diferentes Estados como um grupo terrorista, análises tentando culpabilizar diferentes atores foram feitas. A responsabilização de Israel como perpetrador da explosão também esteve presente. 

O governo israelense, liderado pelo Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, negou qualquer envolvimento e seu rival, o Hezbollah, também não acusou o país.   

Na quarta-feira, 05 de agosto, o Conselho Superior de Defesa do Líbano, liderado pelo Presidente Michelle Aoun, ordenou o estabelecimento de uma comissão de investigação, que apresentará suas primeiras conclusões. Isso forçou o gerente geral do porto de Beirute, Hassan Kouritem, a declarar na mídia que ele havia enviado várias cartas às autoridades relevantes alertando-as contra a continuação do armazenamento de materiais perigosos no porto. Na quinta-feira, dia 06 de agosto, apelos semelhantes foram feitos para que funcionários do porto fossem colocados em prisão domiciliar. Outros atores, ainda, exigiram uma comissão internacional de inquérito.

Nenhum elemento indicava a autoria do governo israelense sobre a tragédia, mas ainda no Brasil análises atribuindo a responsabilidade de Israel continuam sendo feitas e divulgadas em redes de notícias mainstream em todo território nacional e replicadas nas redes sociais. 

A mídia libanesa e outra redes de notícias da região já “encontraram” culpados, embora não de alto escalão. Os culpados são um grupo de soldadores que, pouco antes da explosão, estavam soldando uma cerca e um portão que não estavam fechados e permitiam o acesso à plataforma onde o material era armazenado. Testemunhas na região disseram que os soldadores terminaram seu trabalho pouco antes das 17h e, quando saíram, uma nuvem de fumaça foi vista onde eles estavam trabalhando. Pouco depois, ocorreu a primeira explosão, seguida pela explosão massiva que destruiu o porto e bairros próximos. O gerente dos trabalhadores disse que a equipe terminou o trabalho horas antes da explosão e estava a uma distância significativa, mas resta saber como esse depoimento se comportará em um tribunal cujos membros incluem ministros e oficiais de segurança que também podem estar implicados na tragédia.

A explosão foi registrada por inúmeras testemunhas em vídeo, ninguém viu mísseis atingindo o solo, as autoridades libanesas e o Hezbollah não acusaram Israel. Dessa forma, permanece o questionamento: por que analistas brasileiros continuam dizendo que Israel é responsável?

Foto: Local da explosão em Beirute (Foto: HUSSEIN MALLA/AP)

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