O assassinato de Rabin e a disputa que atravessa gerações
04 nov 26

O assassinato de Rabin e a disputa que atravessa gerações

Revital Poleg

Trinta e um anos depois, a legitimidade de um governo apoiado por votos árabes volta ao centro do debate político em Israel.

No 31º aniversário do assassinato de Yitzhak Rabin, Israel volta a enfrentar uma questão central da disputa que antecedeu sua morte: uma maioria parlamentar que inclui os votos de cidadãos árabes tem a mesma legitimidade que outra apoiada apenas por partidos judaicos?

Por uma coincidência inquietante, nesta quarta-feira, 4 de novembro de 2026, a Comissão Central Eleitoral entregou ao presidente de Israel os resultados oficiais das eleições para a 26ª legislatura do Knesset, o Parlamento israelense. A controvérsia sobre a participação dos partidos árabes não é apenas uma questão de memória histórica: está entre os principais impasses na formação do novo governo.

Muitos eleitores não têm lembranças pessoais da época em que Rabin foi assassinado. Cerca de 640 mil jovens estavam aptos a votar pela primeira vez nestas eleições, todos nascidos após o assassinato. Para eles, Rabin é uma figura histórica, e as esperanças e controvérsias do processo político daquela época são conhecidas por relatos familiares, pela escola e pelo espaço público. Mas a controvérsia não ficou no passado: continua atravessando gerações e marcando a realidade política israelense. Os representantes da população árabe têm o “direito” de participar da definição de quem governa, ou seus votos só contam enquanto não forem decisivos?

Vale recordar: em 1993, após a saída do partido Shas da coalizão, os partidos árabes da época passaram a dar sustentação parlamentar ao governo Rabin, sem integrar a coalizão. Esse apoio não se limitava à abstenção: em outubro de 1995, o Acordo de Oslo II foi aprovado por 61 votos a 59, com o apoio de parlamentares árabes. Além de se oporem às políticas do governo, alguns de seus adversários questionavam a legitimidade da maioria parlamentar que o sustentava. O argumento de que uma decisão política não seria válida sem uma “maioria judaica” atribuía, na prática, pesos diferentes aos votos dos cidadãos conforme sua identidade nacional.

Essa distinção assumiu contornos perigosos em meio à incitação da época. Na manifestação da Praça Zion, em Jerusalém, circulou uma fotomontagem de Rabin vestido com o uniforme da SS nazista. Benjamin Netanyahu, então líder da oposição e do Likud, discursou da sacada de um edifício acima da praça. O caixão carregado numa manifestação em Ra’anana e os gritos de “Morte a Rabin” também fizeram parte desse cenário de incitação. Esses episódios traduziram uma contestação parlamentar em linguagem de incitação. A ruptura da norma começou com a própria tese, não apenas com a violência: ao declarar ilegítima a maioria parlamentar, abriu-se caminho para militantes marginais que se viam como executores da vontade de todo um setor da sociedade.

Isso não significa que todos os opositores dos Acordos de Oslo tenham participado da incitação. Mas é indispensável distinguir a oposição a uma política da tentativa de apresentar um governo eleito como traidor, sem legitimidade para decidir. O assassinato de Rabin nos obriga, ainda hoje, a reconhecer o perigo de apagar essa fronteira.

Nas eleições recém-realizadas, ressurgiu o argumento de que o apoio dos partidos árabes deslegitima um governo, por vezes acompanhado de advertências sobre a “islamização” de Israel. Isso, porém, não impediu uma participação eleitoral recorde entre os árabes: cerca de 77% a 78% dos eleitores compareceram às urnas. As duas listas, Ra’am e a Lista Conjunta, conquistaram juntas 19 cadeiras no Knesset, contra dez na legislatura anterior. A mobilização foi motivada por questões civis: a criminalidade desenfreada nas cidades árabes, o abandono persistente e quatro anos sob um ministro responsável pela segurança interna que não os vê como cidadãos iguais. “Estamos aqui, não à margem”, declarou Mansour Abbas após as eleições. A conta é clara: 48 cadeiras do bloco da mudança, mais 19 dos partidos árabes. Uma maioria sólida, aparentemente incontestável.

É esse o paradoxo mais agudo da política israelense hoje: o bloco da mudança quer substituir o governo, mas continua dividido quanto à legitimidade de recorrer ao apoio dos partidos árabes para isso. Um governo de minoria viabilizado pelo apoio externo desses partidos é uma solução parlamentar possível. O problema, porém, não está na distinção entre integrar uma coalizão e apoiá-la de fora, mas em recorrer aos votos árabes e, ao mesmo tempo, negar essa dependência. É querer governar “com” esses votos, mas dar a impressão de governar “sem” eles. Essa contradição prolonga um padrão já presente na disputa pela legitimidade do governo Rabin nos anos 1990: os votos árabes entram na contagem, mas seu direito de influenciar quem governa continua sendo questionado. A mesma lógica persiste entre aqueles que buscam uma mudança de governo.

Do outro lado do espectro político está a chamada “extrema direita”, que já não ocupa uma posição marginal, mas exerce poder no governo. Itamar Ben-Gvir, condenado em 2007 por incitação ao racismo e apoio a uma organização terrorista, assumiu o comando do ministério responsável pela segurança interna. Seu partido conquistou agora sete cadeiras no Parlamento, uma a mais do que na legislatura anterior. Mas o peso da extrema direita não se mede apenas pelo número de assentos que ocupa no Knesset. A presença de Ben-Gvir e Bezalel Smotrich nos centros de poder reflete um processo de legitimação política em que Netanyahu desempenhou papel decisivo: aqueles que antes eram considerados parceiros políticos ilegítimos tornaram-se peças centrais de seu governo.

A relação entre 1995 e o presente não exige equiparar os dois períodos nem seus protagonistas. Exige perguntar como posições antes consideradas extremas passaram a servir de base para acordos de coalizão, enquanto a parceria com representantes da população árabe ainda precisa justificar sua própria legitimidade.

A defesa do diálogo e da parceria também atravessa gerações: reúne judeus e árabes, tanto jovens que acreditam nessa possibilidade quanto pessoas mais velhas que se lembram de Rabin e da noite de seu assassinato. O que une a maioria não é a idade, mas uma agenda comum: segurança, serviços públicos, representação justa e fortalecimento da democracia. Essa perspectiva não elimina as divergências nacionais nem apaga a memória do passado. Busca, ao lado delas, construir uma base cívica para a ação conjunta. A memória histórica pode dar profundidade a esse esforço, enquanto a geração que não viveu aquele período pode lhe dar novas formas.

Trinta e um anos após o assassinato de Rabin, a mudança necessária não é apenas moral, mas também prática: reconhecer que as 19 cadeiras conquistadas pelos partidos árabes têm o mesmo peso que todas as demais. Isso não significa que seja obrigatório incluir determinado partido no governo ou aceitar suas posições. Significa avaliar cada partido por suas políticas e compromissos, sem desqualificá-lo pela identidade de seus eleitores. A Declaração de Independência de Israel prometeu plena igualdade de direitos civis e políticos a todos os cidadãos do país. O próximo governo será avaliado pela maneira como cumprirá essa promessa, inclusive em sua composição e nos acordos que servirão de base à sua formação. Quem se recusa a pagar o preço da parceria pode acabar pagando o preço da paralisia.

Mas, para além da aritmética das coalizões, há uma questão mais profunda: 31 anos de memória ensinaram a democracia israelense a proteger não apenas o direito de um líder eleito de governar, mas também o direito de todos os cidadãos, em igualdade de condições, de influenciar a composição e as políticas do governo?

O assassinato de Rabin não é uma profecia sobre a próxima crise. É um lembrete do preço que já pagamos quando a disputa pelos rumos do país levou à negação da legitimidade de sua liderança e terminou com os disparos na Praça dos Reis de Israel, por volta das 21h40, na noite de sábado, 4 de novembro de 1995.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

 

 

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