Ideologia e ingenuidade ou valores e esperança?
01 out 25

Ideologia e ingenuidade ou valores e esperança?

David Diesendruck

Por David Diesendruck, diretor e cofundador do Instituto Brasil-Israel

Nos tempos difíceis que vivemos, um comportamento cada vez mais raro dentro e fora da nossa comunidade é a verdadeira conversa.

Aquela em que todos podem expressar sua opinião com sinceridade e ter a expectativa de serem escutados com respeito.

Um espaço que reconhece que a unanimidade é perigosa e que a troca de diferentes pontos de vista é um processo enriquecedor e valioso.
Nossos sábios ensinam que, na tradição rabínica, nenhum aluno era afastado da yeshivá (escola rabínica) por discordar do conteúdo apresentado. A exclusão ocorria apenas quando se perdia o respeito pelo processo de debate.

Hoje, no entanto, vemos crescer a tendência de desqualificar opiniões divergentes. Muitas vezes, ideias diferentes são rotuladas como fruto de “ingenuidade” ou “ideologia”. Mas afinal, de que estamos falando?

Seria a ideologia sionista expressa na Declaração de Independência de Israel, que reuniu setores diversos da sociedade civil, religiosos e seculares, para afirmar princípios claros e inequívocos?

“O Estado de Israel estará aberto à imigração judaica e ao retorno dos exilados; promoverá o desenvolvimento do país em benefício de todos os seus habitantes; será fundado sobre os princípios de liberdade, justiça e paz, conforme vislumbrados pelos profetas de Israel; assegurará plena igualdade de direitos sociais e políticos a todos os seus cidadãos, sem distinção de religião, raça ou sexo; garantirá a liberdade de religião, de consciência, de língua, de educação e de cultura; protegerá os Lugares Santos de todas as religiões; e será fiel aos princípios da Carta das Nações Unidas.”

Ser sionista, portanto, é defender esses valores nacionais que estão acima de qualquer governo ou coalizão. É reconhecer que dar voz à sociedade israelense que luta por esses ideais é uma responsabilidade também de nós, judeus da diáspora. Diante de um afastamento desses valores fundacionais do sionismo, permanecer em silêncio não é apenas omissão: é abrir mão de parte essencial da nossa identidade.

E quanto à ingenuidade?

A definição nos lembra que ela pode ser tanto simplicidade e pureza quanto falta de senso prático. Mas, em nossa tradição, ingenuidade se aproxima da virtude: é a disposição de olhar o mundo sem malícia, acreditando na possibilidade de transformá-lo.

Resgatando nossa história, sabemos que buscamos ser uma “luz entre as nações” e assumir o tikun olam, a missão de reparar o mundo. Longe de ser ingenuidade, isso é determinação uma responsabilidade que carregamos há milênios.

No judaísmo, a ingenuidade pode ser força. É através dela que se manifesta nossa esperança a mesma que se reflete no Hatikvá, o hino de Israel.
Concluo, assim, que ideologia e ingenuidade não são rótulos depreciativos, mas parte de nossos valores e de nossa esperança em um mundo melhor. Renunciar a elas é renunciar a nosso compromisso judaico e sionista.

E na véspera de Iom Kipur, talvez essa seja a reflexão que nos cabe: não apontar quem está certo ou errado, mas nos perguntar como comunidade se estamos preservando a diversidade de vozes que sempre foi fonte de nossa vitalidade. Pois se este é o tempo do perdão e da renovação, que também seja o tempo de resgatar nossa capacidade de ouvir e de sonhar juntos.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

A imagem utilizada neste artigo foi gerada por inteligência artificial.

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