O terrorismo judaico que o governo Netanyahu instiga ou ignora
Daniela KreschTEL AVIV – Nas últimas semanas, a Cisjordânia tem se tornado palco de um aspecto tenebroso da presença israelense nesse território. Há uma escalada significativa na violência perpetrada por israelenses extremistas que moram nessa região (os chamados colonos) contra palestinos locais. Mas essa violência se tornou ainda mais visível após episódios de ataques a profissionais da imprensa estrangeira e delegações diplomáticas europeias por esses colonos. Tudo frente às câmeras dos principais canais de notícias do mundo.
A repercussão internacional tem sido imensa, manchando a imagem de Israel pelo mundo – uma imagem já abalada por acusações absurdas e libelos de sangue contra o país deslanchados principalmente depois do ataque do Hamas ao Sul de Israel em 7 de outubro de 2023 e da guerra que se seguiu. Nesse caso, no entanto, não há exagero ou “fake news”. Hordas de colonos têm cometido atos que se assemelham a verdadeiros “pogroms” contra populações palestinas inocentes.
A violência também se volta a estrangeiros. Num dos casos mais recentes, uma comitiva integrada por diplomatas da França, Bélgica e Polônia foi atacada perto do vilarejo de Al-Taybeh, próximo a Ramallah, por cerca de 10 indivíduos mascarados, que atiraram pedras contra os veículos oficiais, quebraram janelas e entraram em confronto físico com integrantes das delegações. Três pessoas ficaram feridas, incluindo um prefeito francês que participava da missão.
Outro caso chocante foi o da violência contra a fotógrafa americana Heidi Levine, do The Washington Post. Ela foi cercada e agredida por colonos mascarados no vilarejo de Abu Falah. Embora utilizasse colete e capacete com identificação de imprensa, ela foi derrubada e golpeada. Teve câmera, celular e passaporte levados, sendo encaminhada ao hospital para tratamento cirúrgico.
E o presidente de Israel, Isaac Herzog, pediu pessoalmente desculpas a Levine por telefone: “Expresso profunda tristeza e peço desculpas pelo que você passou”, disse Herzog na chamada. “O comportamento desprezível destes criminosos não representa os cidadãos e os valores do Estado de Israel”, completou.
A Associação de Imprensa Estrangeira (FPA) e a direção do Washington Post divulgaram comunicados cobrando a apuração rigorosa das ocorrências e a garantia da integridade dos profissionais de comunicação na região. O ministro das Relações Exteriores da Bélgica, Maxime Prévot, condenou o episódio e defendeu a ampliação de sanções da União Europeia contra colonos violentos. Outros governos europeus exigiram a abertura de investigações formais. As Forças de Defesa de Israel detiveram pelo menos 10 criminosos e declararam a abertura de inquéritos para apurar os incidentes.
É claro que é sempre preciso assinalar que dos mais de 600 mil israelenses que moram na Cisjordânia – incluindo 200 mil em Jerusalém Oriental –, a vasta maioria não é violenta. Eles moram num território em disputa jurídica entre israelenses e palestinos por uma miríade de motivos, incluindo econômicos, sociais e religiosos. Mesmo os que consideram que a Cisjordânia deveria ser anexada por Israel (algo que nunca aconteceu, apesar da pressão dos ultranacionalistas do atual governo) não apelam ou advogam violência.
Mas um grupo cada vez maior – de centenas, talvez milhares – se sente cada vez mais encorajado a fazer desse território um “Velho Oeste” sem lei. São, em geral, jovens radicalizados por uma ideologia de soma zero: a de que a Judeia e a Samaria (nome hebraico da Cisjordânia) são dos judeus e fazem parte da terra que Deus prometeu aos descendentes dos patriarcas do Tanach (o Velho Testamento), Abraão, Isaac e Jacó.
Sua radicalização espelha a dos palestinos que também jogam o mesmo jogo de soma zero e acreditam que a Cisjordânia é apenas dos muçulmanos, promessa de Alá e do profeta Maomé. Recentemente, grupos de palestinos também atiram pedras contra veículos israelenses, como o que aconteceu nesta segunda-feira, 19 de outubro, quando o carro de uma candidata ao Knesset, o Parlamento israelense, foi atacado.
Não há dúvidas de que a Judeia e a Samaria são alguns dos principais palcos dos eventos bíblicos. Não há dúvida, também, de que há presença judaica constante na região há pelo menos 3 mil anos. E também é clara a importância e da presença árabe no território há 1.400 anos. O problema é quando religião e nacionalismo se encontram numa explosão de violência e exclusão mútua.
Como tudo nesse conflito, há nuances no pensamento de cada um dos lados. Nem todos pensam igual entre os israelenses e palestinos que chamam a Cisjordânia de lar. A questão se complica ainda mais quando os atuais governos de ambos os lados fazem vista grossa ou até mesmo incitam os mais radicais a agir. Assim é no caso de terroristas palestinos que atacam israelenses e são festejados como “mártires” (suas famílias recebem assistência financeira vitalícia). E assim é no caso dos terroristas – sim, é esse o termo correto – judeus que atacam palestinos, destroem suas colheitas e casas, assediam vilarejos inteiros e são acobertados por ministros do atual governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, como o ministro da Segurança Interna Itamar Ben Gvir e o ministro da Economia, Bezalel Smotrich, que também ocupa o cargo de ministo no Ministério da Defesa responsável pelos assuntos civis na Cisjordânia.
A influência dessas autoridades e a aparente falta de interesse do resto da coalizão de Netanyahu é que tem levado esses colonos a apertar o gás da violência. O exército e a polícia, controlados pelos políticos radicais citados acima, recebem orientações vagas e contraditórias quando tentam acalmar a situação. Soldados e policiais israelenses têm sim se esforçado para proteger os palestinos atacados, mas não agem com toda a força que têm para estancar, prender ou até mesmo atirar contra os atacantes judeus. Afinal, não sabem se serão festejados por cumprir o seu dever se serão expulsos das forças de defesa se assim o fizerem.
Isso piora diante da reação abobalhada do primeiro-ministro, que hesita em condenar a violência dos colonos e, quando o faz, costuma atenuar os atos. Em post nas redes sociais após o ataque aos diplomatas europeus, o gabinete do premiê pediu “cautela antes de tirar conclusões a partir dos relatos” sobre um “suposto ataque de israelenses mascarados a diplomatas europeus na Judeia e Samaria”. O post afirmou que a delegação dos diplomatas não coordenou sua visita à Cisjordânia e que o prefeito francês ferido é “filiado ao Partido Comunista Francês” e que “anteriormente, hasteou a bandeira palestina em seu prédio municipal” – como se isso justificasse o ataque.
Há tempos a violência desse grupo de colonos têm aumentado e, com ela, as tentativas de Netanyahu se desmerecer os fatos, diminuir sua importância e afirmar que se trata apenas de um “punhado” de “adolescentes” fazendo birra. Paralelamente, não se pode ignorar que relatos que incluem vítimas palestinas são, muitas vezes, exagerados por ideólogos da ideologia “do rio ao mar”, que costumam aumentar fatos para demonizar Israel.
Outro detalhe que não se pode esquecer é que a grande maioria dos israelenses abomina a violência dos colonos. Se os ministros da extrema-direita e seus núcleos duros fingem não ver ou aplaudem abertamente, a maioria absoluta da população israelense não aprova nem muito menos enaltece esses radicalizados. Não há, em Israel, regra ou lei que considere esses criminosos como heróis que merecem virar nome de praça.
Mas o torpor desse governo em lutar com veemência contra essas pessoas é uma real mancha moral que, se não for combatida, pode ajudar os que já combatem Israel a basear seus gritos de “do rio ao mar”. Dessa vez, no entanto, com base em fatos e não em fake news, exageros ou libelos de sangue fantasiosos.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
*Daniela Kresch é jornalista e correspondente do IBI em Israel.
Foto: Susya, assentamento israelense na Cisjordânia | Wikimidia Commons
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