Israel diante da porta
27 out 26

Israel diante da porta

Karl Schurster
Pós-doutor em História pela Universidade Livre de Berlim, pesquisador do CNPq e assessor do Instituto Brasil Israel.

Em Diante da lei, Franz Kafka conta a história de um homem do campo que chega a uma porta aberta e pede para entrar. O porteiro responde que agora não é possível, talvez mais tarde. O homem senta-se num banquinho ao lado da porta e espera durante dias e anos, oferece presentes, conversa com o guardião, aprende a reconhecer até as pulgas da gola de pele do porteiro e envelhece ali. Já perto da morte, pergunta por que ninguém mais pediu para entrar, se todos procuram a lei, e ouve que aquela entrada se destinava somente a ele e que agora seria fechada.

Volto a essa lenda (Legende) enquanto 7,3 milhões de israelenses escolhem hoje os 120 deputados do Knesset, na primeira eleição nacional desde 7 de outubro de 2023. Há muitas portas nesta eleição, e quase todas permanecem entreabertas. A mais visível tem um número, 61, a maioria necessária para formar governo, e as últimas pesquisas indicam que nenhum dos campos deve alcançá-la. A lista de Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior, aparece com algumas cadeiras de vantagem sobre o Likud, partido de Benjamin Netanyahu, mas nenhum dos campos parece capaz de alcançar sozinho a maioria parlamentar, o que pode transformar a votação de hoje no começo de uma batalha política, em vez de seu desfecho.

Quase três anos depois do massacre do Hamas, que matou cerca de 1.200 pessoas em Israel e levou 251 reféns para Gaza, os israelenses chegam às urnas carregando uma sequência de guerras e perdas: o confronto com o Irã iniciado em fevereiro, os combates no Líbano, o cativeiro dos últimos reféns, encerrado em janeiro, e a ofensiva que deixou um rastro imenso de devastação em Gaza. Votam também sob o peso das perguntas que o governo adiou, como a criação de uma comissão de inquérito sobre as falhas daquele dia e a isenção do serviço militar concedida aos ultraortodoxos, num país que exige cada vez mais de seus reservistas. Soma-se a isso o julgamento por corrupção do primeiro-ministro, que pediu indulto ao presidente Isaac Herzog, ainda sem decisão. O comparecimento registrado pela manhã, o mais alto em 45 anos para aquele horário, sugere que a sociedade israelense compreendeu o tamanho do que decide hoje.

Netanyahu fez da segurança o centro de sua campanha e exibiu o apoio de Donald Trump como garantia de que a ameaça iraniana seria finalmente eliminada sob sua liderança. Às vésperas da votação, compartilhou uma imagem gerada por inteligência artificial de uma explosão nuclear sobre Tel Aviv e advertiu para o risco de um segundo Holocausto caso os eleitores escolhessem uma liderança incapaz de enfrentar o Irã. Tom Segev mostrou, em The Seventh Million, como a memória do Holocausto marcou a política israelense desde a fundação do Estado, ora como fundamento de solidariedade, ora como instrumento de mobilização. Quem estuda essa história aprende a reconhecer o instante em que a lembrança dos mortos passa a servir de argumento eleitoral, uso que não fortalece a memória nem a democracia que dela deveria se nutrir.

Eisenkot respondeu no mesmo terreno ao prometer acabar com o poder do Hamas em Gaza em dezoito meses, encerrar a isenção dos ultraortodoxos e devolver ao Estado a autoridade sobre a Cisjordânia diante dos colonos violentos. Recusou a anexação, que considera uma ameaça ao próprio projeto sionista, e rejeitou com a mesma ênfase a ideia de um Estado palestino, que julga ilusória depois de 7 de outubro. A diferença entre os dois candidatos existe e pesa sobre as instituições, a relação com o Judiciário e o lugar de Israel no mundo, mas se estreita muito quando a conversa chega aos palestinos.

Os cidadãos árabes de Israel, cerca de um quinto da população, podem decidir esta eleição, já que o Ra’am, de Mansour Abbas, e a Lista Conjunta devem somar entre onze e catorze cadeiras, número suficiente para inclinar a balança. Os dois campos descartaram uma coalizão formal com os partidos árabes. O Likud anunciou que pediria à Comissão Central Eleitoral a desqualificação dessas listas, e fez campanha com o slogan “Não há Gadi sem Tibi”, referência ao deputado Ahmad Tibi. Abbas, que em 2021 levou pela primeira vez um partido árabe a uma coalizão de governo, voltou a se oferecer como parceiro e conclamou seus eleitores a comparecer. São cidadãos convidados a votar e advertidos, no mesmo gesto, de que seus votos não devem atravessar a porta do governo. Para os milhões de palestinos da Cisjordânia e de Gaza, a porta de Kafka nem sequer aparece, embora o resultado de hoje vá incidir sobre cada dia de suas vidas.

Há quem enxergue nessa recusa uma prudência ditada pelo trauma, porque uma sociedade ferida desconfia de alianças que seus adversários apresentam como traição, e há quem a leia como sintoma de uma democracia que ainda não decidiu se pertence a todos os seus cidadãos. As duas leituras dizem algo importante sobre Israel em 2026. O país que sair destas urnas terá de escolher entre continuar administrando seus conflitos sob uma coalizão que levou a extrema direita ao centro do governo ou reconstruir um espaço comum capaz de acolher a divergência sem convertê-la em ameaça.

Kafka nunca revelou o que havia além da porta, e talvez por isso a lenda continue a nos perturbar mais de um século depois. O homem do campo esperou uma permissão que jamais veio e passou a vida inteira sem tentar atravessar a entrada por conta própria. Esta noite, quando as pesquisas de boca de urna forem divulgadas, Israel conhecerá apenas o primeiro número de uma conta longa. O futuro do país se decidirá nas semanas seguintes, na maneira como seus líderes responderem a uma pergunta mais antiga do que esta eleição: quem pode atravessar a porta e participar efetivamente da vida política, e quem continuará do lado de fora, à espera de uma autorização que talvez nunca venha?

Trazida para a política, essa alegoria kafkaniana ganha a forma de uma advertência ao afirmar que nenhuma democracia resiste por muito tempo quando parte de seus cidadãos envelhece sentada ao lado da porta que também deveria lhe pertencer. Os israelenses que hoje formaram filas diante das seções eleitorais atravessaram a porta por conta própria, afirmando sua disposição de ocupar o próprio lugar na vida pública. É dessa disposição, depois de anos de luto e de guerra, que pode nascer o vento capaz de soprar em outra direção sobre a terra de Israel.

 

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: Wikicommons

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