ELEIÇÕES DE 27 DE OUTUBRO: Impasse impossibilidade saber quem será o próximo premiê
27 out 26

ELEIÇÕES DE 27 DE OUTUBRO: Impasse impossibilidade saber quem será o próximo premiê

Daniela Kresch

TEL AVIV – O dia 27 de outubro de 2026 foi, ao mesmo tempo, a festa do eleitorado israelense – que compareceu em massa às urnas – e a festa da boataria, das fake news e da incerteza. Foi um dia com apenas duas certezas. A primeira é que a participação dos eleitores foi a maior desde 2001: 77,7% dos 7,3 milhões de eleitores compareceram às urnas (num país em que votar não é obrigatório). A democracia israelense provou que continua forte e robusta.

A segunda é que ainda é impossível saber quem venceu. Há um impasse entre os blocos da situação e da oposição. Segundo as bocas de urna, o bloco do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu recebeu entre 50 e 51 cadeiras (após o Canal 13 ter reformulado seus resultados). Já o de oposição, entre 51 e 53. Tudo está em aberto.

Quem será o próximo primeiro-ministro? Sugiro muita calma nessa hora para que saibamos. Talvez leve semanas ou meses. Ou talvez sejam convocadas novas eleições para daqui a seis meses.

A maior vencedora do dia é a minoria árabe de Israel, que contabiliza 21% da população do país. Os partidos árabes conseguiram, segundo as pesquisas de boca de urna, entre 17 e 18 cadeiras das 120 do Knesset, o Parlamento: 15% do total de assentos. Se 77,7% dos israelenses votaram, os árabes israelenses passaram dos 80% de comparecimento. Nunca algo assim aconteceu. Isso mostra que esse minoria decidiu se engajar na democracia de seu país como nunca. E isso é ótimo.

Não se sabe, no entanto, qual será a participação desses partidos num possível governo. Um deles, o Ra’am – que conseguiu 7 cadeiras – está mais do que aberto a entrar numa coalizão. Mas os outros partidos, unidos numa Lista Conjunta, juraram há tempos nunca ingressar num governo “sionista”. Entre seus membros, há quem negue ou não aceite a própria existência do Estado de Israel.

Outro vencedor é Yair Golan, do partido Democratas (Democratim), que ressuscitou a esquerda israelense e deve receber entre 9 e 10 cadeiras na Knesset. Isso depois de muitos terem dito que a esquerda do país havia desaparecido.

Mas o dia teve mais perdedores do que vencedores. Primeiro, o maior partido de oposição, o Yashar (Direto), de Gadi Eisenkot. Há semanas, as pesquisas eleitorais davam a ele entre 23 e 24 cadeiras no Knesset. Nos últimos dias, havia até mesmo um momentum de crescimento e Eisenkot disse almejar se tornar a maior bancada do país. Mas, pelas pesquisas de boca de urna, o Yashar ficou com 21 a 23. Não só se manteve o mesmo tamanho como perdeu para o Likud, que conseguiu de 24 a 25 cadeiras. Uma decepção para Eisenkot.

O segundo perdedor foi Netanyahu. Seu bloco governista mingou de 64 cadeiras para 50 ou 51. Ele pode até mesmo comemorar os números do Likud, que tinha caído para menos de 20 em algumas pesquisas, mas se manteve como o maior partido (o Canal 13 da TV israelense até projeta 27 cadeiras, apenas 5 a menos do que o Likud tem hoje). Mesmo assim, Netanyahu não tem como formar o próximo governo (mínimo de 61 cadeiras).

Outros que perderam foram os partidos ultraortodoxos. O partido Shas despencou de 11 para 6 a 8 cadeiras . E o partido Judaísmo da Torá pode ter perdido uma cadeira das 7 que tem hoje. Quer dizer: o bloco dos ultraortodoxos caiu de 18 para 12 ou 14 assentos. Há dois possíveis motivos. Um deles foi o fracasso do governo atual em aprovar uma lei de dispensa militar do exército para todos os jovens haredim. O outro é um desconforto de muitos eleitores não haredim do Shas com a bandeira do partido de não alistamento – mais do que impopular no país.

Há vários outros perdedores, como Ofer Winter, do partido Povo de Israel (Amchá Israel), que não conseguiu o mínimo de votos para entrar no Knesset. O mesmo aconteceu com Yoaz Hendel, do partido Reservistas (Miluimnikim), que também ficou de fora. Há também Yair Lapid, colíder do partido Juntos (Beyachad), que sumiu da campanha, ofuscado por Naftali Bennet.

Entre poucos vencedores e tantos perdedores, o cenário para a formação de um próximo governo ainda é um mistério. É ingênuo quem se apressa em apontar Netanyahu como carta fora do baralho. Ele já ressurgiu das cinzas inúmeras vezes, sabe lidar com os meandros da política israelense como ninguém. Por outro lado, não se pode ignorar a força do bloco de oposição, mesmo que seja inconsistente e frágil.

Muita água ainda vai rolar por debaixo das pontes israelenses antes de uma decisão. Há a real possibilidade de que o impasse leve a novas eleições no começo de 2027. Eu apostaria nisso. Ou melhor: prefiro não apostar em nada.

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